Um Ano Depois Da Escolha Da Sede Olímpica, Nada Mudou. Reportagem De O Globo. Texto de Eliária Andrade.

Sem dinheiro

Um ano após a escolha do Rio como sede de 2016, esportes com menos estrutura pedem redistribuição de verbas por parte do COB

Publicada em 24/10/2010 às 04h44m

Eliária AndradeRoseli Feitosa: campeã mundial até 81kg: sonho com Londres-2012 apesar da dura realidade vivida em 2010 /Foto: Eliária Andrade

Aos 2 de outubro de 2009, o Rio era escolhido como sede Olímpica de 2016. Mas, apesar de o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) ter anunciado que para ser top 10 no quadro de medalhas o Brasil precisará de 30 pódios em cerca de 13 modalidades, confederações com menos estrutura se queixam da distribuição, pelo COB, dos recursos da Lei Agnelo/Piva, que destina ao esporte 2% das loterias.

Anualmente, o COB divide tais verbas entre as confederações. Mas ocorre que entidades de esportes “grandes” e com patrocínios privados, como o vôlei, recebem os maiores valores.

– O ano de 2010 foi perdido para as confederações ‘nanicas’ – afirma Alaor Azevedo, presidente da Confederação Brasileira de Tênis de Mesa (CBTM). – Criei até a expressão ‘ChiLeoa’. Na China, estão as oito com mais recursos, e em Serra Leoa, as outras 22. As ricas levam de 85% a 90% dos recursos, como no país em que os 10% mais ricos têm 80% dos recursos.

Em Pequim-2008, o Brasil obteve 15 medalhas (três ouros, oito pratas e sete bronzes) em 38 finais; em Atenas-2004, dez (cinco ouros, duas pratas e três bronzes) em 30 finais; e em Atlanta-1996, 15 pódios (três ouros, três pratas e nove bronzes) em 20 finais, num aproveitamento melhor.

– Desde 1996, o Brasil tem medalhas em judô, natação, basquete, vôlei, atletismo, hipismo, iatismo e futebol. Em Pequim, saiu o hipismo, entrou o taekwondo. Para ser top 10 em 2016, temos de ampliar este leque – explica o superintendente técnico do COB, Marcus Vinícius Freire. – Teremos de ganhar duas medalhas de futebol, duas de vôlei de quadra, quatro ou cinco no judô, cerca de quatro no iatismo. E em mais seis outras.

O projeto é bom. Mas sobram confederações que dependem do COB.

– O badminton é um esporte de baixa popularidade. Vivemos 100% da Lei Agnelo/Piva: R$ 900 mil/ano. Não temos patrocínio. Dependemos totalmente do COB – explica o presidente da Confederação Brasileira de Badminton, Celso Wolf Jr., para quem não há mentalidade esportiva, e sim de futebol. – Há talentos, mas leva dez anos para formar um medalhista olímpico.

Petrobras investe no esporte

Para a gerente executiva da Confederação Brasileira de Tiro com Arco (CBTArco), Pierina D’Amico, há uma grande burocracia no Ministério do Esporte e no COB, e nenhuma empresa tem incentivo para investir. Para apresentar projetos, há exigências demais para entidades pouco estruturadas e sem dinheiro para fazer marketing. O presidente da Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC), José Luiz Vasconcellos, compartilha da ideia de que o esporte brasileiro está perdendo tempo:

– Se entrarmos em 2011 sem nada definido, estaremos atrasadérrimos.

Em meio à queda de braço entre COB e confederações “nanicas”, a Petrobras irá investir, anualmente, R$ 20,1 milhões até 2014, no boxe (R$ 5 milhões); taekwondo (R$ 4,4 milhões); remo (R$ 4 milhões); esgrima (R$ 3,4 milhões); levantamento de peso (R$ 3,3 milhões). Segundo Cláudio Thompson, gerente de patrocínios, as modalidades foram escolhidas por ex-atletas e jornalistas, e o gerenciamento será do Instituto Passe de Mágica, de Magic Paula, sem ingerência nas confederações.

– Não haverá cobrança por medalhas, mas por evolução no desempenho das cinco modalidades. Se as medalhas vierem, será a coroação ao trabalho – garante Thompson, esclarecendo que a Confederação Brasileira de Handebol (CBHb), que tinha apoio da empresa, rejeitou o novo formato.

Presidente da Confederação Brasileira de Levantamento de Peso (CBLP), Ricardo Calmon aguarda o contrato com a Petrobras. Ele lembra que o país conta com Fernando Reis, bronze no Mundial, e que o esporte “dá” 45 medalhas olímpicas.

– Mas sem apoio, vamos bater palmas para os estrangeiros.

Entre as “grandes”, há dirigentes que defendem a redistribuição da Lei Agnelo/Piva, sem eco no COB.

– A distribuição é reavaliada todos os anos, de acordo com metas estabelecidas entre COB e confederações. Sempre são levados em conta os outros recursos de cada confederação – informou o COB, sem comentar a ação da Petrobras.

Atualmente, têm apoios de empresas públicas as confederações de vôlei, atletismo, basquete, natação, ginástica, tênis e ciclismo. Mas faltam investimentos privados no esporte, que ainda depende excessivamente do dinheiro público. Como a corda arrebenta do lado mais fraco, sobra para a boxeadora Roseli Feitosa, campeã mundial até 81kg.

– O que me ajuda são o Bolsa-Atleta de R$ 1,5 mil, que comecei a receber este ano, e uma academia, que me dá uniforme e suplementos. Sei que 90% dos boxeadores trabalham como segurança ou em academias. A gente não tem apoio. A gente sobrevive – enfatiza. – Quero ir a Londres-2012, e depois, se tiver patrocínio, viro profissional. Se não, sigo no boxe olímpico até 2016.

Categorias olimpismo

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