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TENDÊNCIAS/DEBATES

ALBERTO MURRAY NETO

Para evitar escândalos esportivos


A visão puramente dinheirista que norteia a direção esportiva do país é deplorável; o esporte social, que deve ser o início de tudo, permanece desamparado



O Brasil foi bem um mais uma edição dos Jogos Pan-Americanos. As medalhas devem ser muito comemoradas. É necessário, entretanto, ter a dimensão exata das dimensões da competição continental.
Boa aparição no quadro de medalhas não indica que o país está bem no quesito esporte.
Apesar do enorme dispêndio de dinheiro público no alto rendimento, a nossa participação em Londres, no ano que vem, será apenas razoável, não muito diferente do que tem ocorrido em Jogos Olímpicos anteriores, em que os investimentos eram bem menores.
Se o Brasil figura à frente do Canadá no número de medalhas no Pan, é incorreto dizer que temos uma nação esportivamente mais desenvolvida que eles.
Lá, toda a população, desde a infância até a terceira idade, tem acesso gratuito à prática desportiva. E é isso que faz uma nação ser esportivamente forte. O Brasil ainda está muito distante desse patamar.
O Brasil não avançou um metro sequer na formulação de políticas públicas para o desporto. A utilização sucessiva do Ministério do Esporte como elemento de barganha política e o desinteresse do Comitê Olímpico Brasileiro em adotar uma administração moderna, com regras claras de governança corporativa, fazem com que o esporte permaneça à mercê de sua própria sorte.
O Ministério do Esporte é um mero repassador de dinheiro. E o Comitê Olímpico Brasileiro, preocupado em organizar grandes eventos, tem servido para, além disso, distribuir uniformes. São organismos que têm um fim em si próprios.
Na estrutura do esporte brasileiro, as entidades batem cabeça. Na prática, não se sabe que atribuição compete a cada organização.
A visão puramente dinheirista que norteia a direção esportiva do Brasil é deplorável. O esporte social, que deve ser o início de tudo, continua desamparado. Crianças da rede pública de ensino permanecem sem acesso à pratica esportiva. E não há nenhum movimento para alterar essa realidade. As prioridades do país nesse setor estão erradas.
Não há vontade política de massificar o esporte. Enquanto isso, somos diariamente bombardeados com as cifras gigantescas que custarão aos cofres públicos a organização da Copa e da Olimpíada.
Num país em que crianças não têm bola, pista, quadra ou piscina à sua disposição, o Estado gastará uma exorbitância em estádios de futebol e complexos esportivos que não servirão para nada.
Daí a minha sugestão de que cada estádio que for construído para a Copa transforme-se em unidade de desenvolvimento de esporte em sua região. Com poucas modificações, podem ser transformados em pistas de atletismo.
O Comitê Olímpico Brasileiro, financiado com muito dinheiro público, não divulga quanto ganham os seus funcionários de alto escalão, certamente bem mais que a Presidência da República. Também modifica os seus estatutos, blindando seus atuais gestores, de forma a tornar quase impossível a existência de movimento oposicionista.
Diz-se entidade privada, mas tem seus caprichos nutridos com verbas públicas. E o achincalhe é que nenhuma autoridade estatal repudia essas violências jurídicas.
Uma entidade que vive de dinheiro do povo não pode tirar desse mesmo povo o direito de concorrer aos cargos de sua direção. E é isso que faz o Comitê Olímpico Brasileiro.
Qualquer brasileiro no gozo de seus direitos pode ser candidato a presidente da nação. Mas não pode ser candidato a presidente de seu Comitê Olímpico. Uma verdadeira inversão de valores. O Brasil precisa alterar profundamente os conceitos que administram o esporte.
Se não houver mudanças imediatamente, a Copa e Olimpíada, juntas, poderão ser o maior escândalo da história da República. Lembremo-nos do Pan-2007, que custou 1.000% mais caro aos brasileiros. E cujo legado para o povo é nenhum.

ALBERTO MURRAY NETO é advogado e diretor da ONG Sylvio de Magalhães Padilha, de apoio ao esporte e ao movimento olímpico. Site: www.espn.com.br/albertomurrayneto Twitter: @albertomurray

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

Texto Anterior: Aécio Neves: A travessia, ainda

A MÍDIA E A BALELA DO “QUADRO DE MEDALHAS” PAN-AMERICANOS E OLÍMPICOS…

“Os Jogos Olímpicos são um conjunto de competições entre atletas individuais ou equipes, não entre países.”
“O COI e o COJO não estabelecem qualquer classificação global por país. O COJO elabora um quadro de honra com os nomes dos medalhados e portadores de diplomas em cada prova e os nomes dos medalhados devem ser colocados em evidência de forma permanente no estádio principal.” (Carta Olímpica nº 58)

A mídia tem intensificado a exploração do chamado “Quadro de medalhas” fazendo deste a finalidade dos eventos multi-esportivos internacionais, no qual o próprio Comitê Olímpico Brasileiro vem se baseando para elencar o “desenvolvimento” e “evolução” do esporte Olímpico brasileiro. A “briga” pela colocação no dito quadro já virou uma meta dos países, os quais brigam para estar na 2ª ou 3ª colocação, já que a 1ª sempre é dos Estados Unidos da América ou da China (no caso Olímpico).
Agora como entender o quanto a mídia, o COB e muitos ainda se equivocam com esse uso de “classificação global por país (ou CON)”.

1 – A Carta Olímpica repudia tal colocação, pois os Jogos Olímpicos (ou os Jogos Multi-desportivos continentais e locais aprovados pela autoridade do COI) são competições entre atletas, não entre países. Isso vem desde a celebração dos Jogos Olímpicos da Antiguidade, onde o vencedor era apenas um. Com a celebração dos Jogos Olímpicos Modernos, durante os períodos negros da história, essa prática de fazer a contagem de medalhas começou a virar praxe extra-oficial visando a competição entre países.

2 – É incabível comparar países como os EUA ou a RPC com, por exemplo, os outros países em 3º e 4º colocado. O investimento no desenvolvimento esportivo nesses países vêm de décadas de preparação. Preparação em atletas individuais, em esportes que oferecem mais medalhas.

3 – Como comparar um esporte como a ginástica, a natação, o atletismo, o judô, que distribuem centenas de medalhas com esportes coletivos que contam como uma, como o futebol, volei, handebol, basquete, nos quais o caminho para a final é bem mais demorada que os outros esportes que distribuem medalhas em um só dia. Como colocar em pé de igualdade tal disparidade?

4 – O primeiro lugar fica com o número de ouros ou o número de medalhas totais? Depende se convem ao CON… Vide Pequim 2008 e o caso dos EUA.

5 – Olhemos para o exemplo do Brasil agora. É indiscutível o investimento em esportes coletivos que distribuem apenas 1 medalha, enquanto os esportes individuais carecem de investimentos, os quais os atletas necessitam ou bancar seus treinos, ou buscar patrocínio, ou treinar fora do país. Como colocar em pé de igualdade o volei brasileiro que há décadas vem recebendo investimento com a ginástica que, por vezes, se viu na falta de patrocínio à atletas favoritos a medalhas douradas em Jogos Olímpicos? É indiscutível a diferença de repasse de verba para a preparação dos atletas de base… A base mesmo da pirâmide esportiva! No Brasil o foco é o topo, mas daqui há algum tempo o topo não se sustentará sem uma base sólida!

6 – Vamos pegar outro exemplo. A melhor colocação brasileira no “quadro de medalhas” nos Jogos pan-americanos foi em 1963, no Pan de São Paulo, quando ficou em 2º lugar. Se olharmos para o Pan de Guadalajara 2011, onde o Brasil ficou em 3º, é possível dizer que a melhor colocação do Brasil ainda foi em 63? Quantas medaçhas o Brasil ganhou em 2011? Qual era a realidade em 63, tanto em investimento, bem como nas próprias condições da prática esportiva?

7 – “A nossa meta é ficar entre os 10 primeiros em 2016” (Nuzman)… Meta? Pra que? Números não fazem pessoas, não fazem atletas, não desenvolvem o país! O que o COB precisa entender é que os Jogos Olímpicos do Rio em 2016 é a única chance para que o movimento Olímpico Brasileiro comece a olhar a base, para que o legado seja verdadeiro e, tal qual LA 1984 faça do Brasil não só uma “potência esportiva” para ficar entre os 10 primeiros no “quadro geral”, mas sim ser um país formador de atletas humanos. A meta é transformar os bilhões investidos nos Jogos para garimpar atletas de auto-rendimento que estão escondidos por ai!

Poderíamos ficar aqui falando mais coisas, mas creio que esses 7 pontos já nos dão uma boa reflexão… O Olimpismo não é somente um meio de competição! É UMA FILOSOFIA DE VIDA!!!

Carta à imprensa

 

Você lembra o famoso filme Jamaica Abaixo de Zero?

Então você sabe o que é o bobsled. E você também já deve ter visto em algum momento nos últimos 9 anos alguma matéria sobre uma equipe brasileira que teima em representar nosso país.

 E talvez, caso você seja muito curioso, deve saber que existem vários outros esportes de inverno praticados por destemidos brasileiros.

 Pois o assunto desta carta é a Confederação Brasileira de Desportos no Gelo – CBDG.

A CBDG abriga 7 diferentes esportes olímpicos de inverno, todos praticados no gelo. Desde o advento da Lei Piva, o COB se reorganizou em relação aos desportos que fazem parte do programa olímpico de inverno, e os dividiuem duas Confederações Nacionais.A CBDN (Confederação Brasileira de Desportos na Neve) e a CBDG (Confederação Brasileira dos Desportos no Gelo).

No ultimo dia 27 aJustiça do Rio de Janeiro atendeu ao pedido de um grupo de atletas e ex-atletas do Gelo que entraram na Justiça com um pedido de intervenção do seu atual presidente, o carioca Eric Leme Walther Maleson.

Nada é o que parece. Apesar do nome, Eric nasceu no Rio, e apesar de ser o presidente da CBDG, ele vive em Boston (EUA).

A queixa?

A princípio os atletas estavam descontentes com a alocação de recursos, a falta de investimento em treinamentos, equipamentos, a falta de um planejamento, mesmo a curtíssimo prazo. Em alguns casos o atleta era avisado que a viagem seria cancelada dias e até mesmo  horas antes do embarque. A impressão era que a CBDG tinha um dono, e nada mais. Sua esposa americana é a voz da secretaria eletrônica que atendeem Boston. Nenhumfuncionário, nenhum plano, nenhum clube filiado, nenhum patrocínio na ultima década, nenhuma transparência.

O valor para filiar um clube na CBDG custa a bagatela de R$ 45.000,00 (!) Isso mesmo! (http://www.cbdg.org.br/images/stories/docs/regulamentos/CBDG_REGIMENTO_TAXAS.pdf)

Ao buscar os documentos da CBDG junto aos cartórios, a surpresa foi maior ainda. Os clubes que sustentam a CBDG são constituídos por parentes, não tem movimentação a mais de 10 anos, os estatutos da CBDG são descumpridos constantemente, as eleições da Confederação não tem legitimidade, as prestações de conta estão sempre com atraso (de ate 3 anos) , etc, etc, etc.

Os atletas constituíram advogado, buscaram inúmeras provas e montaram um assustador relatório onde tudo é mostrado e provado com fartura de dados.

São 14 anos de uma gestão incompetente, sem desenvolvimento, sem patrocínios, sem organização, sem planejamento e quase sem futuro.

Convidamos  todos a lerem o relatório em anexo. É uma obra prima de um dirigente que pensa que nunca ninguém descobrirá suas mazelas, sua incompetência. É a prova da tomada de uma entidade em beneficio próprio, do uso do público pelo privado.

Contamos com a indignação de todos, com o apoio daqueles que não se conformam com a desonestidade.

Sim, a CBDG não tem a expressão e representatividade de outros esportes, mas nem por isso deve perder  em valor. É uma entidade que representa nosso pais em 7 modalidades Olímpicas, que abriga atletas obstinados e capazes.  Eles tem orgulho de ser brasileiros, de competir pelo nosso pais, de buscar e batalhar por seus  sonhos, por mais inusitado que seja.

Saudações esportivas

Edson Luques Bindilatti

 

http://videos.r7.com/leandro-oliveira-e-ouro-nos-1-500-m-do-atletismo-por-um-centesimo/idmedia/4ea87b633d14f45d738d0dbb.html

Foi no foto sharp. O outro comemorando. E Leandro vence o campeonato panamericano, em Guadalajara, na prova de sua especialidade, 1.500 metros. Leandro é campeão é bi campeão brasileiro, bi campeão sulamericano, campeão da milha de rua; campeão Ibero Americano e, agora, campeão panamericano. Leandro é muito mais que tudo isso. É cidadão exemplar, policial militar modelo, que passou em primeio lugar na sua turma, tendo recebido seu diploma das mãos do governador do Estado de São Paulo, como reza a tradição.

Leandro não vive somente do atletismo. Leandro tem a consciência do atleta e da sua função social. Leandro é discreto, sereno e mesmo diante de tantas vitórias importantes, nunca deslumbrou-se.

Leandro é Atleta da Organização Não Governamental Sylvio de Magalhães Padilha ( ONG SYMAP), o que muito nos dá orgulho.

Hoje é um dia especial para todos nós da SYMAP. É possível, sim, realizar um trabalho pelo esporte social, educacional e, ainda assim, obter resultados no alto rendimento. O alto rendimento é apenas resultado do esporte massificado, honesto, puro, levado a sério. A SYMAP é uma entidade que n~unca pos a mão em um centavo de dinheiro público. Nem nunca vai por. Vivemos exclusivamente da contribuição de amigos, que dão a sua contribuição mensal.

A SYMAP quer agradecer a muita gente. Em primeiro lugar ao próprio Leandro. Temos que agradecer à Josi, ao Marcão, ao Adauto e a todos aqueles estagiários que integraram a nossa equipe técnica. Obrigado da SYMAP para o Duda Groisman, que deixou postos importantes em empresas multinacionais para cuidar do esporte social. Aos demais diretores, Paulo de Magalhães Padilha Murray, Simon Maurice Franco e Sonia de Magalhães Padilha Murray. Obrigado ao Pedro Chiamulera, Lie Nonaka e Renato Soriano, que começaram esse projeto conosco, em 2.002. Sinceros agradecimentos a todos os voluntários médicos, fisioterapeutas e nutriconistas que, durante esses anos nos ajudaram muito, sem receber qualquer remuneração, apenas pelo prazer de realizar um trabalho social. Obrigado a toda Comunidade de Paraisópolis, que acolheu nosso projeto. Obrigado à Margareth, coordenadora da creche. Agradecemos aos Colégio Santo Américo, Escola Graduada Americana e Visconde de Porto Seguro, que nos abriram as portas para dar treinamentos àquela garotada fantástica. Obrigado a cada um dos nossos amigos que, a cada mês, nos dá sua contribuição e que nos permite continuar com esse trabalho. Obrigado aos nosso amigos de internet, que sem, nos conhecer pessoalmente, nunca param de nos mandar mensagens de apoio e uncentivo.

Obrigado ao meu avô, Sylvio de Magalhães Padilha, que como atleta e dirigente mostrou-nos o caminho do Olimpismo, do esporte para todos e a crença verdadeira de que a prática desportiva é, antes de qualquer coisa, um mecanismo de desenvolvimento do país.

A ONG SYMAP seguirá seu rumo, com muito mais entusiasmo, segura de que é, sim, possível, fazer um esporte honesto, voltado para os segmentos mais carentes da nossa sociedade.

Boa Leandro. Estamos esperando por Você aqui. E vamos comemorar muito essa medalha lá com a garotada em Paraisópolis.

Neste momento Andrew Jennings está falando para a Comissão de Esportes e Educação do Senado Federal. A vinda desse combativo Jornalista ao Brasil e o convite que lhe foi formulado pelo nosso Senado são muito significativos e a esperança de que algo comece a mudar no esporte do País, a ponto de salvar a Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos, de forma que não se tornem o maior escândalo financeiro da história.

Também lê-se no noticiário a alviçareira notícia de que Orlando Silva será defenestrado de seu cargo hoje à tarde. Que não fosse pela imensidão de denúncias que há anos vêm assolando o Ministério do Esporte, que fosse pela incompetência do quase ex-Ministro. Silva nunca foi do ramo. Não entende nada de políticas públicas para o esporte. Fez daquela Pasta uma filial de seu partido. Abençoôu ONGs caquéticas com recursos milionários, sem que tivesse havido prestação de contas. Aliou-se ao que de pior há na cartolagem nacional. Fez vistas grossas ao escandaloso super fatiramento dos Jogos Panamericanos Rio 2.007. Nada mais fez do que ser um órgão repassador de dinheiro. Um importante atraso no desenvolvimento do esporte brasileiro, Orlando Silva e sua turma.

Não adiantará nada trocar Silva por outro integrante da trupe. É a hora de o esporte ser visto como instrumento de desenvolvimento da nação, investir no esporte social, em convênios com o Ministério da Educação, fazendo com que toda a rede pública de ensino d Brasil leve a prática do esporte aos alunos e à população de baixa renda. É o momento de encerrar com aquele jogo de empurra que são essas Olimpíadas Escolares, que não acrescentam absolutamente nada de positivo para a massificação verdadeira do esporte brasileiro. É o momento de falar groso com o Comitê Olímpico Brasileiro, com as Confederações, exigindo delas contra partida social pelo dinheiro público que abarrotam os seus cofres. É o momento de exigir que essas entidades cumpram regras de governaça corporativa, tais como publicação de seus balanços em jornais que são de grande circulação; que alterem os seus estatutos sociais de forma a não fazer delas feudos pessoais. Há que se exigir — e o Ministério, se quiser, tem força política para isso — que o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro não acumule o cargo de presidente do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos de 2.016. E que o presidente da CBF também não acumule a presidência do Comitê Organizador local.

Precisa definir claramente qual o modelo de políticas pública que será adotado e posto em prática no Brasil. Apoiar o esporte universitário, de forma revivê-lo e fazer das universidades mais um polo de desenvolvimento do setor. Aproveitar a excelente estrutura esportiva das forças armadas para também massificar o esporte e colocar tais instalações a serviço do alto rendimento.

O Ministério do Esporte não precisa de outro político, neófito no assunto, que queira o cargo para usá-lo como trampolim para vôos mais altos.

Um Ministro que negue e renegue as honrarias vazias da cartolagem, não se deixando inebriar com um mundo de sedução que o esporte oferece. E que os fracos acabam cedendo.

Está aí a nova chance que o Brasil tem de fazer do esporte um importante elemento de melhoria da sociedade.   

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Bola quadrada no campo enlameado
‘Esporte no Brasil é o seguinte: a gerência é privada, mas os recursos são públicos. Assim fica fácil’, diz economista Elena Landau
23 de outubro de 2011 | 3h 06
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O Estado de S.Paulo
CHRISTIAN CARVALHO CRUZ

Botafoguense tem cada uma… Dia desses a economista e advogada carioca Elena Landau praticava caminhada e sentiu uma dor aguda no quadril. “Fisgada no ilíaco. Meu amigo, você sabe o que é uma fisgada no ilíaco?”, ela destrincha, na maior das intimidades atléticas com o músculo acomodado nas cavidades ósseas das ancas. Com dificuldade para andar, foi afastada pelo departamento médico das cadeiras do Engenhão, de onde costuma ver as partidas do Botafogo quando o time joga no Rio. Trocou o estádio pela sala de casa. A visão direta do campo, pela intermediação da TV. Bem sem graça, ela achou. “Só que aí o Botafogo começou a subir na tabela e eu não quis arriscar: melhorei do ilíaco, mas não voltei pro estádio”, conta.

O time ainda vai bem no Campeonato Brasileiro, com chance de ser campeão. Se isso tem a ver com a heterodoxia de arquibancada de Elena, não há como saber. Mas não deixa de ser curioso comparar. Integrante da linha de economistas da PUC-RJ que formaram a zaga do governo FHC, naqueles tempos ela era chamada de ortodoxa por comandar – “sem jogo de cintura”, diriam os oposicionistas de então – o processo de privatização das empresas públicas. A plaquinha na porta do escritório ajudava nessa imagem: diretora de desestatização do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES.

É de dentro da área, portanto, que Elena fala: “O projeto da Copa do Mundo no Brasil está errado de partida. É um evento privado, destinado a atender interesses privados, mas que conta com recursos públicos. Tem cidade que faria melhor uso do dinheiro do BNDES se construísse metrô e corredor de ônibus, porque não tem renda nem público suficiente para fazer um payback do investimento”. Elena hoje trabalha como advogada numa grande banca no Rio e assessora o Instituto Teotônio Vilela, órgão de estudos ligado ao PSDB.

Numa semana rica em bolas quadradas rolando por campos enlameados – acusações contra o ministro do Esporte, Orlando Silva, ONGs de fachada, queda de braço entre o governo e a Fifa por meias-entradas e venda de cerveja nos estádios da Copa – o Aliás convocou Elena para comentar o jogo, mas ela avisou: “Houve um tempo em que eu acreditava que a gestão do esporte brasileiro podia mudar. Montei uma consultoria esportiva e até trabalhei no Atlético Mineiro e no Botafogo”. Diz que desistiu por cansaço. Deu cãibra na paciência, estiramento no desencanto. Sentiu-se vencida pelo jogo travado que se disputa no setor e, apesar de conhecer bem a cancha, agora prefere atuar como uma torcedora especializada, por assim dizer. “Hoje em dia os meus comentários sobre esporte são de pessoa física.” A eles, pois.

Esporte é questão de Estado?

Depende. O esporte ligado a educação, sociabilidade, cidadania e formação do indivíduo, como agente transformador de vidas, este é questão de Estado. Mas Copa do Mundo certamente não é. Trata-se de um evento privado. Como um show do U2 ou do Justin Bieber. Uma Copa só seria assunto de Estado se usada para alavancar uma transformação do espaço urbano. E, pelo que estamos vendo atualmente e também pela experiência dos Jogos Pan-Americanos de 2007 no Rio, sabemos que não é esse o caso. O Pan de 2007 não revitalizou nada, não melhorou a cidade. Tem o estádio do Engenhão, que é onde joga o meu Botafogo e é até um bom estádio. Mas e o entorno? Aquilo é um abandono só, não há sequer transporte público decente para chegar lá. Acho importante separar esses conceitos entre público e privado para entender as causas da precariedade do esporte no Brasil.

Terceirizar o esporte para ONGs seria uma dessas causas?

O Brasil conseguiu desmoralizar a utilização das ONGs, que conceitualmente têm valor. Mas houve um exagero nessa terceirização do esporte. No fundo, as ONGs de esporte fazem hoje o que a escola pública fazia antigamente, mas deixou de fazer por causa do abandono e da decadência do ensino público, decadência física, inclusive. Há colégios que não têm quadra de esportes e precisam fazer convênio com academia de ginástica para ter aula de educação física. Para resumir, eu diria que o Estado brasileiro deixou de cumprir seu papel. Se achamos que o esporte é suficientemente relevante a ponto de ter um ministério específico, precisamos definir uma política esportiva clara para o País. Mas ministério no Brasil serve para assegurar governabilidade, preencher cotas dos partidos da coalizão.

Nada se salva em termos de política esportiva por aqui?

Em 2016 vamos sediar uma Olimpíada no Rio. Ok. Mas queremos desenvolver seriamente quantas modalidades olímpicas até lá? Três? Trinta? Temos aptidão para todas elas? Vamos investir só nas quais já somos bons ou também nas quais precisamos melhorar? O Brasil nem sequer sabe responder a essas perguntas. O projeto do Ministério do Esporte para a Olimpíada no Rio em 2016 é só fazer a Olimpíada no Rio em 2016. É um projeto de obras, não um projeto esportivo. A Austrália, quando sediou os Jogos em 2000, criou um programa para a natação que dá frutos até hoje. Eles não queriam passar o vexame de não ganhar medalha dentro de casa. No Brasil impera a mentalidade da escavadeira: “Oba, vamos sediar uma Olimpíada porque assim podemos usar o orçamento pra fazer obra. Se ficarmos em último lugar no quadro de medalhas, não tem problema”. É vergonhoso ver os ginastas brasileiros, que são uns heróis, talentosíssimos, mendigando patrocínio. E ao mesmo tempo ver uma ONG levando dinheiro do governo para comprar camiseta. Que diabo o governo tem que comprar camiseta pra ONG?! Por outro lado, não acho que ONG deva formar atletas olímpicos. Como se forma um atleta de competição, eu não sei. O Brasil vive de modismos, de ídolos momentâneos, como a seleção de vôlei do Bernardinho, o Gustavo Kuerten no tênis, anos atrás.

Mas por que nunca aproveitamos essas modas para criar uma política esportiva consistente?

O problema é que o Brasil não tem uma filosofia de trabalho nesse sentido, não segue nenhum dos dois modelos básicos de programas esportivos que conhecemos: o de participação maciça do Estado no desenvolvimento de atletas, como em Cuba ou na China, e o de formação nas escolas e universidades, como nos Estados Unidos. Aqui não temos nem um nem outro. Estamos perdidos no meio do caminho. Apesar de dizerem que nós temos a participação do Estado nos esportes, o fato é que o Brasil privatizou – e privatizou mal – os esportes. Entregou sem critério nenhum para federações e confederações, que não passam de feudos políticos. Então, quem cuida do esporte brasileiro? As ONGs, micro-organismos pulverizados e sem uma política unificada e organizada, ou as federações e confederações. Ou seja, quando é conveniente, o esporte é público, e aí pede dinheiro ao governo para os programas das ONGs, e quando não é conveniente, quando tem que prestar contas, ser transparente, reclama-se da interferência do governo em assunto privado. Eu sou a última pessoa a ser contra privatização de alguma coisa, mas vejo claramente uma apropriação indevida do esporte brasileiro pelo setor privado. Nosso modelo é o seguinte: a gerência é privada, mas os recursos são públicos. Assim fica fácil.

Qualquer semelhança com a Copa de 2014 é mera coincidência?

A Copa do Mundo é um evento da Fifa. Não é de governo de país nenhum e ninguém obriga um governo a se oferecer para sediá-la. Quem tem vontade de receber uma Copa se candidata porque quer. E desde o começo conhece as regras estabelecidas pelo dono do negócio, no caso, a Fifa. Então não vale agora, no final do segundo tempo, vir discutir se o Brasil está vendendo sua soberania ao ceder a pressões da Fifa para mudar esta e aquela legislação interna. Isso é uma bravata, uma coisa nacionalista, ufanismo bobo. Quando apresentou sua candidatura, o Brasil sabia perfeitamente onde estava se metendo. E aí fica discutindo a filigrana da meia-entrada e da venda de bebida dentro dos estádios. Aliás, deveriam aproveitar o momento para liberar de vez a venda de bebida. Isso é uma hipocrisia. Bebe-se tranquilamente nas barraquinhas em torno do estádio. E até parece que as torcidas organizadas deixam de brigar porque não podem mais beber. É simples resolver a questão da violência. O cidadão arrumou encrenca? Que ele seja retirado, fichado e impedido de voltar. A Inglaterra fez isso e funcionou…

Você falava que o Brasil conhecia as regras do jogo quando apresentou a candidatura.

Por causa do nosso histórico futebolístico, nós até gostaríamos de acreditar que para a Fifa é uma honra fazer uma copa no Brasil, o “país do futebol”. Mas a Fifa, obviamente, não poderia estar ligando menos pra isso. O que ela quer é ganhar o dinheiro dela e acabou. Ela chega, não coloca um tostão, ganha bilhões e vai embora. Isso não é novidade. O projeto da Copa no Brasil está errado desde a partida, porque foi feito pela CBF, também uma empresa privada, a fim de preservar seus feudos políticos regionais. É um projeto sem sentido. O governo brasileiro entra com dinheiro público – dinheiro do meu, do seu, do nosso imposto – em um projeto privado destinado a atender somente a interesses privados. Aí vem o BNDES e financia estádios em locais que jamais terão público suficiente para fazer um payback do investimento. Jamais. Isso é dinheiro a fundo perdido. Nem o estádio do Corinthians vai dar retorno. Teria se o clube colocasse 60 mil pessoas lá dentro em todos os jogos. Mas vemos pelo Campeonato Brasileiro que a média de público do Corinthians, que tem a maior torcida do Brasil (os flamenguistas que me desculpem), mal chega à metade disso. Se o setor privado tivesse se interessado pela construção dos estádios, o BNDES poderia financiar a transformação urbana das cidades. Eu não vou citar quais, para não melindrar prefeitos e governadores, mas tem cidade aí que certamente faria melhor uso do dinheiro do BNDES se construísse metrô e corredor de ônibus.

Por que o setor privado não se interessou pelos estádios?

Por que eles não vão dar dinheiro. Fizeram algum estudo econômico sério nas sedes da Copa? Desconheço. Vamos ter estádio digno de país com renda per capita de US$ 10 mil encravados em cidade com renda per capita que é um quinto disso. Como é que a iniciativa privada vai se interessar por algo assim? Mas o problema maior é mais antigo, vem antes da Copa. Nós devíamos estar nos perguntando por que o Brasil, com toda sua força de pentacampeão do mundo e gerador de craques, não tem estádios com nível internacional até hoje. A resposta é simples: porque não tem público, a média de público é deprimente, e não tem público porque o futebol brasileiro não é feito para atender o público. Quem programa um jogo de futebol para as 10 da noite de quarta-feira não está interessado na receita gerada pelo público. Mas deveria estar, porque um tipo de geração de receita não exclui o outro. Na Europa adotam um modelo de receita tripla: tem a parte da televisão, a do público pagante e a do marketing dos clubes. Só que lá, quando você vai assistir a um jogo de futebol, o estádio é limpo, confortável, seguro, tem transporte público na porta, comida de qualidade, lojas, lugar marcado, horário decente para que o jogo seja um programa familiar e um calendário imexível. Não tem esse negócio de adiar jogo porque vai haver um amistoso inútil da seleção contra o Gabão só para satisfazer interesse de patrocinador da federação. Desse modo, o público é garantido; e público garantido faz brilhar os olhos do setor privado. Mas o que temos no Brasil? Se a CBF não faz nada direito no futebol interno, como é que podemos esperar que ela possa fazer uma Copa direito?

Você estatizaria a CBF?

Eu preferiria que não fosse privada. Ao contrário do que se fez no setor elétrico, por exemplo, em que a exploração do serviço foi concedida mediante licitação, nunca houve uma licitação que desse à CBF o direito e o monopólio de representar o futebol brasileiro. Mas não tem como mudar. Não há elemento jurídico para isso. Me incomoda que a CBF não esteja preocupada com o futebol brasileiro. Não vejo problema que ela ganhe dinheiro, desde que licitamente, mas acho mal resolvido o uso que ela faz dos símbolos da Nação. A CBF não tem dinheiro público, não tem subvenção, só que usa o verde-amarelo da nossa Bandeira, canta o Hino Nacional… Quem a elegeu para fazer isso por nós e quanto ela paga ao governo para usar esses símbolos? Então, eu preferiria que ela não fosse privada. Nós brasileiros damos muito mais à CBF do que a CBF dá para nós. O futebol brasileiro não amedronta mais adversário nenhum. Jogamos de igual para igual com a Costa Rica. E eu tenho certeza que a decadência está diretamente relacionada a essa administração da CBF.

A Fifa alega que pode ter prejuízo de R$ 1,8 bilhão se não houver as adequações que ela espera na Lei Geral da Copa.

Prejuízo?! Como é que ela pode ter prejuízo num negócio em que não está gastando nada? Não estou entendendo essa conta. A Fifa deve estar procurando uma desculpa, pensando se vale a pena fazer a Copa no Brasil ou não. Mas ela não vai levar o evento para outro país. A relação entre Fifa e CBF é muito forte. A Fifa só tira a Copa do Brasil se o Ricardo Teixeira (presidente da CBF) quiser, não tem nada a ver com o governo brasileiro.

Qual a sua avaliação sobre as denúncias de corrupção contra o ministro do Esporte, Orlando Silva, e o impacto delas na organização da Copa?

Me parece que desde o início da gestão a presidente Dilma Rousseff tinha a ideia de contar com alguém de fora do ministério para tocar a Copa. É um evento específico, não precisava misturar com o dia a dia do ministério. Mas isso não vingou. O fato de a presidente assumir o controle da Copa mostrou a importância que o governo brasileiro está dando ao evento, o que é muito bom. Dá mais moral para o cronograma, para a execução das obras. Agora os envolvidos terão de despachar diretamente com a presidente da República, e ela já tem essa imagem de gestora determinada, incisiva. Talvez seja uma boa oportunidade de colocar alguém no ministério com perfil estritamente técnico, para que a pasta deixe de ser só essa simples repassadora de verba para ONGs.

ELENA LANDAU é economista, advogada, ex-diretora do BNDES, ex-consultora em Gestão Esportiva e botafoguense

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