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Parece que acharam a ponta do novelo de lã e agora não para mais. A corrupção no esporte é inexorável. Muito sempre se falou e até certa altura os então “arautos da moralidade”, gabavam-se que não havia provas, que o esporte era uma “família” e os cartolas eram “abnegados”. E como disse o canadense Dick Pound, membro do COI e presidente da WADA, “sabemos que isso é apenas a ponta do iceberg”. Dick Pound é ex-atleta finalista olímpico, importante membro do COI e presidente da WADA. Ele sabe o que diz.

Conheci, realmente, dirigentes e atletas abnegados. Comecei a frequentar o COI, acompanhando meu avô, ainda muito jovem. Conheci grandes dirigentes, atletas e ex-atletas, idealistas, efetivamente preocupados com o Olimpismo. Depois dos Jogos de 1.976, em Montreal, o Movimento Olímpico deparou-se com um impasse. Os Jogos de Montreal deram monstruoso prejuízo à Cidade, que levou cerca de trinta anos para pagar a dívida. Naquela época ainda prevalecia o amadorismo puro e os investimentos eram todos estatais, não havia nenhuma possibilidade de participação da iniciativa privada em merchandise ligado aos Jogos Olímpicos. Em 1.980 não houve problemas para realizar as Olimpíadas. Na época da guerra fria a União Soviética queria mostrar ao mundo sua força e capacidade de organização e gastou quanto foi necessário para realizá-lo. Nunca se soube quanto realmente gastou naquele certamente olímpico.

Para os Jogos de 1.984 houve o grande impasse. Em razão dos prejuízos gritantes que organizar Jogos Olímpicos resultavam e em vista das regras rígidas de amadorismo impostas pelo COI, não havia nenhuma cidade candidata para realizá-lo. O Movimento Olímpico estava em uma encruzilhada. Corria sério risco, não apenas em virtude dos sucessivos boicotes que houve em 1.976, 1.980 e 1.984, mas porque organizar Olimpíada era muito caro e não dava retorno algum. O COI não teve outra opção a não ser flexibilizar suas regras. Foram muitas discussões, uma corrente ainda defendendo a pureza do amadorismo, outra nem tanto e outra militando em favor da rápida profissionalização do esporte. Meu avô era, mais uma vez, membro da Comissão Executiva do COI e acompanhei muito de perto essas discussões.

O fato é que o COI flexibilizou suas regras de amadorismo e, pela primeira vez, empresas privadas, visando lucro, puderam entrar diretamente na organização dos Jogos Olímpicos, participando do Comitê Organizador, já não bancado exclusivamente pelo dinheiro estatal. Foi nessas condições que Los Angeles aceitou organizar os Jogos Olímpicos de 1.984, liderado por Peter Ueberroth, que presidiu os Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos de Verão naquele ano. Fez parte desse movimento, o COI iniciar a abertura para a participação dos atletas profissionais nas competições olímpicas.

Com tudo isso, os Jogos Olímpicos, que corriam o risco de até mesmo acabar, foram revitalizados e passaram a ter importância ainda maior do que tinham antes. Viraram, acima das próprias disputas esportivas, um grande negócio. os olhos do mundo voltaram-se para o Movimento Olímpico, vendo ali enormes possibilidades de lucros. Os atletas passaram a ser muito bem remunerados por seus patrocinadores. As votações para escolhas das sedes olímpicas passaram a ter muito mais relevância. Os membros do COI, responsáveis por escolherem, em votações secretas, a sede dos Jogos Olímpicos, passaram a ser muito assediados, muitas vezes de forma indecente. Para os membros sérios do COI, era necessário impor, com rigor, a necessária distância aos representantes de empresas interessadas em lucrar com o Movimento Olímpico, aos patrocinadores e aos representantes das cidades candidatas.

Se por um lado a flexibilização das regras que o COI promoveu asseguraram a sobrevivência e a aumentaram a importância dos Jogos Olímpicos, por outro, ao atrair muito dinheiro para aquele segmento, aumentou a corrupção, fomentou-se o doping e tantas outras coisas maléficas para o esporte.

O esporte vive hoje, portanto, outro dilema. Escândalos como os da FIFA, do COI, compra de votos para escolhas de sedes das Copas do Mundo de Futebol, Jogos Olímpicos, campeonatos mundiais de outras modalidades, IAAF, jogos arranjados no tênis de alto nível, armação de resultados vinculados às loterias esportivas são coisas que tiram toda credibilidade do esporte e que devem ser investigadas com toda profundidade. Se isso tudo não for passada em pratos limpos e as figuras maléficas não forem expurgadas do esporte, ele correrá, novamente, o risco de minguar.

 

 

 

Ano após ano um amigo me faz as mesmas perguntas sobre o esporte brasileiro:

  1. Houve renovação dos velhos cartolas que há anos dirigem os esportes no Brasil?
  2. O Governo implantou a política nacional de Estado para o esporte?
  3. Foi criado o programa escolar de esporte, de massificação em toda rede de ensino público?
  4. Foi criado um programa de estruturação e massificação do esporte universitário?
  5. Foi criado um circuito de competições escolares e universitárias em todo território nacional, durante todo o ano letivo?
  6. O Estado procurou pelo SESI, SESC e AABB para assinaturas de convênios de forma que alunos da rede pública de ensino possam aproveitar dessa estrutura esportiva e ter bom acesso à prática esportiva?
  7. Houve massificação das transmissões televisivas dos esportes olímpicos de forma que a população possa ter acesso à modalidades pouco difundidas?
  8. Houve punição para dirigentes que administraram tão mal as entidades esportivas que as deixaram em situação de penúria financeira?
  9. Houve punição para os dirigentes cujas entidades foram, comprovadamente, objeto de malversação?
  10. Houve alteração do calendário do futebol?

O fato é que entra ano, sai ano, nada muda na estrutura central do esporte brasileiro. E continuarei cobrando.

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