Home

Clique duas vezes para ver o detalhe!

caras_2009

A consagradora vitória do César Cielo mostra, mais uma vez, que o esporte brasileiro vive de heróis, de talentos naturais que são cuidadosamente lapidados e que, por esforço brutal, consegue chegar ao patamar mais alto do pódium. Será que se o gigante César Cielo tivesse nascido na França, ou nos EUA, o caminho dele para a glória teria sido menos difícil? Sim, acho que teria. Lá o Atleta de alto rendimento tem efetivo apoio dos órgãos dirigentes do desporto. O esporte brasileiro, a cada dia, dá demonstrações de que suas conquistas não são fruto de um trabalho planificado, de longo prazo, da famosa política esportiva. Cielo lutou muito para chegar aonde está. Um dos melhores depoimentos do programa Brasil Olímpico, da ESPN Brasil, foi dos pais do nadador brasileiro, que deixaram muito claro que se não fosse o sustento financeiro deles próprios, esse talento teria ficado pelo meio do caminho. Emocionante a declaração da mãe de Cesar Cielo, ao afirmar que as medalhas olímpicas eram dele e que vieram sem apoios oficiais. Melhor ainda foi quando a corajosa mãe intimou a cartolagem a nunca mais trancar o filho em uma sala e fazer sobre ele irresistível pressão para não falar a vedade, ou o que de fato sentia. Essas medalhas obtidas até agora em Roma, embora poucas em comparação com o potencial que o Brasil poderia desenvolver, são de enorme valia. E servem para comprovar que, cada vez mais, o Brasil precisa de mudanças na direção do esporte, de forma a arejar as arestas. Que não digam os dirigentes que a medalha de Cesar Cielo é produto de suas administrações competentes. Não é. Deixem o Cielo falar. Deixem os pais dele falarem novamente. Vale sempre questionar quanto dinheiro da Lei Piva foi investido na formação do Atleta, vis-a-vis a dinheirama que jorra pelos ralos da candidatura olímpica brasileira. Será que se o Comitê Olímpico Brasileiro parasse de jogar dinheiro em investimentos sem retorno e passasse a preocupar-se mais com a formação dos Atletas, não teríamos muito mais Cielos? Claro que sim.  Será que não cabe ao clube formador receber parcela da Lei Piva? Sim, desde que a eles, também, sejam impostas regras rígidas de controle uma vez que estarão lidando com dinheiro do povo e estabeleçam quotas mínimas para Atletas militantes. O que não é mais possível é uma entidade, o Comitê Olímpico Brasileiro, receber milhões de Reais de dinheiro público e gastá-lo como bem entender. Inclusive com candidaturas olímpicas . Não vamos usar as medalhas de Roma para tapar o sol com a peneira e jogar a sujeira para baixo do tapete. Vamos aproveitar o momento para discutir, a fundo, os rumos do esporte brasileiro.

Por José Cruz
 
30.07.2009

O drible do ministro


     A convite do ex-craque Raí, do São Paulo Futebol Clube, participei há poucos meses de uma reunião na capital paulista. Raí lidera o movimento Atletas pela Cidadania, de apoio às boas causas sociais, reunindo expoentes do esporte olímpico e paraolímpico: Magic Paula, Lars Grael, Gustavo Borges, Ana Moser, Joaquim Cruz, Fernando Meligeni, Rosane dos Santos, Gustavo Borges, Clodoaldo da Silva, Branca, Rogério Ceni e tantos outros.

     Minha participação foi para apresentar algumas análises sobre o que temos e como são usados os recursos públicos para o esporte. Lá pelas tantas, entrou na pauta a questão do momento, os gastos do governo com a realização dos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro, em 2007. Era recente o primeiro relatório dos auditores do Tribunal de Contas da União (TCU), com indícios de irregularidades – superfaturamentos, principalmente.
                 

    Com base no que os auditores escreveram, manifestei aos atletas minha esperança de que teríamos um relatório final surpreendente e exemplar, assinado pelo então ministro do TCU, Marcos Vilaça, há pouco aposentado.

    Até então apenas ouvindo, Cláudio Weber Abramo manifestou-se. Diretor da ONG Transparência Brasil, ele discordou de meu entusiasmo e sentenciou, para a decepção de todos:

     “Não se iludam. Isso não dará em nada”, afirmou.

 
    Voltei aos argumentos otimistas e lembrei de um rápido encontro que tive com Marcos Vilaça, em seu gabinete. Na ocasião, ele recebia a visita do ministro do Esporte, Orlando Silva. Mais três ou quatro funcionários do TCU – imagino que fossem os auditores que trabalhavam no processo do Pan – estavam numa ampla sala.

    Antes da primeira pergunta e adiantando que não tinha muito tempo para atender repórter, Vilaça foi direto em sua mensagem. Em resumo, disse o seguinte:

     “Estou explicando ao ministro Orlando que não é possível driblar a lei. Sei que estamos próximos da realização do Pan-americano e promover licitações agora pode provocar mais atrasos nas obras. Mas não tem desculpas, pois não podemos concordar com qualquer proposta em contrário”.

    Ficou claro que Orlando Silva foi ao TCU pedir para “driblar a lei”, isto é, contratar obras e serviços sem licitação, uma afronta, uma agressão, uma fraude para quem conhece um mínimo sobre administração pública.
E insisti aos Atletas pela Cidadania que não deveríamos temer, pois o TCU seria, como é seu dever, rigorosíssimo, indiciando os fraudadores. Ricardo Vidal, que em Brasília dirige o Instituto Joaquim Cruz, estava nesse encontro de São Paulo e testemunhou a sentença de Cláudio Abramo:

     “Não se iludam. Conheço essa gente. Essa manifestação do ministro foi uma encenação”.

    Passa o tempo e sai, enfim, o terceiro relatório sobre os gastos nos Jogos Rio 2007. E o que se constatou? Que, lamentavelmente, Cláudio Abramo tinha razão.

     É preciso dizer que os técnicos, os auditores do TCU foram rigorosos. O levantamento que fizeram não deixa dúvidas sobre os deslizes cometidos com o dinheiro público, no Pan. Mas o ministro, em ato decisivo que antecedeu sua aposentadoria, foi complacente, omisso e parceiro do ato ilegal e imoral.

     Pior: consagrou que sua declaração à imprensa, naquela reunião com Orlando Silva foi, de fato, encenação. No melhor estilo do drible da vaca, Marcos Vinicius Vilaça encenou o jogo da mentira e driblou a lei, como foi lhe propor o senhor ministro do Esporte. Por tabela, colocou na cara do gol da salvação e da impunidade o presidente do Comitê Organizador dos Jogos Pan-americanos, Carlos Arthur Nuzman.

Profissionalmente, confesso, tomei o drible da ingenuidade. Acreditei na autoridade, competência e firmeza de uma autoridade do TCU, Marcos Vilaça. Não honrou esses princípios.

    Vilaça, que chefiou a delegação da Seleção Brasileira num jogo contra a Argentina, é amigo íntimo de Ricardo Teixeira, o que dispensa comentários para traçar um perfil mais fiel sobre o ministro aposentado.

JUCA KFOURI

Deixem Jesus em paz


Está ficando a cada dia mais insuportável o proselitismo religioso que invadiu o futebol brasileiro


MEU PAI , na primeira vez em que me ouviu dizer que eu era ateu, me disse para mudar o discurso e dizer que eu era agnóstico: “Você não tem cultura para se dizer ateu”, sentenciou.
Confesso que fiquei meio sem entender. Até que, nem faz muito tempo, pude ler “Em que Creem os que Não Creem”, uma troca de cartas entre Umberto Eco e o cardeal Martini, de Milão, livro editado no Brasil pela editora Record.
De fato, o velho tinha razão, motivo pelo qual, ele mesmo, incomparavelmente mais culto, se dissesse agnóstico, embora fosse ateu.
Pois o embate entre Eco e Martini, principalmente pelos argumentos do brilhante cardeal milanês, não é coisa para qualquer um, tamanha a profundidade filosófica e teológica do religioso. Dele entendi, se tanto, uns 10%. E olhe lá.
Eco, não menos brilhante, é mais fácil de entender em seu ateísmo.
Até então, me bastava com o pensador marxista, também italiano, Antonio Gramsci, que evoluiu da clássica visão que tratava a religião como ópio do povo para vê-la inclusive com características revolucionárias, razão pela qual pregava a tolerância, a compreensão, principalmente com o catolicismo.
E negar o papel de resistência e de vanguarda de setores religiosos durante a ditadura brasileira equivaleria a um crime de falso testemunho, o que me levou, à época, a andar próximo da Igreja, sem deixar de fazer pequenas provocações, com todo respeito.
Respeito que preservo, apesar de, e com o perdão por tamanha digressão, me pareça pecado usar o nome em vão de quem nada tem a ver com futebol, coisa que, se bem me lembro de minhas aulas de catecismo, está no segundo mandamento das leis de Deus.
E como o santo nome anda sendo usado em vão por jogadores da seleção brasileira, de Kaká ao capitão Lúcio, passando por pretendentes a ela, como o goleiro Fábio, do Cruzeiro, e chegando aos apenas chatos, como Roberto Brum.
Ninguém, rigorosamente ninguém, mesmo que seja evangélico, protestante, católico, muçulmano, judeu, budista ou o que for, deveria fazer merchan religioso em jogos de futebol nem usar camisetas de propaganda demagógicas e até em inglês, além de repetir ameaças sobre o fogo eterno e baboseiras semelhantes, como as da enlouquecida pastora casada com Kaká, uma mocinha fanática, fundamentalista ou esperta demais para tentar nos convencer que foi Deus quem pôs dinheiro no Real Madrid para contratar seu jovem marido em plena crise mundial. Ora, há limites para tudo.
É um tal de jogador comemorar gol olhando e apontando para o céu como se tivesse alguém lá em cima responsável pela façanha, um despropósito, por exemplo, com os goleiros evangélicos, que deveriam olhar também para o alto e fazer um gesto obsceno a cada gol que levassem de seus irmãos…
Ora bolas!
Que cada um faça o que bem entender de suas crenças nos locais apropriados para tal, mas não queiram impingi-las nossas goelas abaixo, porque fazê-lo é uma invasão inadmissível e irritante.
Não mesmo é à toa que Deus prefere os ateus…

blogdojuca@uol.com.br

Já manifestei-me que discordo da forma como a Academia Olímpica Brasileira (“AOB”) foi criada. Tudo amarrado à mão forte do Comitê Olímpico Brasileiro (“COB”). O presidente e o vice da AOB são indicados pelo presidente do COB, controlados por eles. Isso tira a liberdade de expressar livremente as suas idéias. Imaginem o que ocorreria com a AOB se fosse ali produzido um documento contrário à realização dos Jogos Olímpicos no Brasil. Ou criticando a falta de legado para o Pan Americano. Qualquer Academia, por definição, deve agir com liberdade de pensamento.

A AOB é formada por gente de alta qualidade. Estive lá em 1.994, em Olympia, na Grécia. É uma experiência enriquecedora. Recentemente, em uma palestra na FMU, em São Paulo, dividi um painel com o Professor Lamartine Pereira da Costa. O tema da nossa exposição era os Jogos Olímpicos de Pequin e a candidatura carioca. Redundante dizer o brilhantismo com que o Professor Lamartine abordou o tema. Ele estampou no telão uma fotografia muito significativa, em que mostrava os organizadores dos Jogos de 2.008, sentados em uma mesa, discutindo a organização olímpica, juntamente com Acadêmicos daquele País. A mensagem foi clara, objetiva, direta: Os Acadêmicos Olímpicos do Brasil não são ouvidos pelo Comitê Olímpico Brasileiro. E eu vou além. Não recebem o apoio que deveriam.

Fosse eu o responsável pelo Comitê Olímpico Brasileiro, começaria por alterar os estatutos da AOB. Faria eleições diretas. Os seus próprios membros elegeriam sua diretoria. Acabaria com a era do dedo poderoso do COB apontando a figura do presidente, do vice e de qualquer outro membro da diretoria.

Destinaria recursos da Lei Piva para desenvolvimento de estudos acadêmicos na área olímpica, fazendo com que fossem divulgados em todo o Brasil. Atualmente os recursos que o COB repassa para ações da AOB são asbolutamente irrelevantes.

Daria apoio democrático à publicações e pesquisas diversas. Hoje, o COB só apoia publicações de quem lhe é simpático. Não aprofunda a discussão. O COB não publica, por exemplo, as obras da Professora Katia Rúbio.

Acho, também, que um membro da AOB, escolhido por seus próprios pares, deveria ter assento na Assembléia Geral do COB. E, mais ainda, em seu Conselho Diretor.

Ocorre que as Academias são centros de pensadores, dos quais os ditatores normalmente têm medo. O meio Acadêmico sempre foi um celeiro de gente disposta discutir, a propor novas idéias, de contestação.  É claro que o COB tem receio de ter uma AOB livre para pensar.

Quando afirmo que o Brasil precisa ter uma mentalidade olímpica, isso não quer dizer, apenas, que deveríamos ter um projeto social de esporte para todos. Mas, igualmente, disseminar a filosofia olímpica, como opção de vida, na nossa sociedade. E a AOB teria papel fundamental nesse processo de educaçäo Olímpica.

Enquanto não houver mudanças profundas na forma em que o COB vê a AOB, ela nunca terá possibilidades de contribuir como poderia – e deveria – para o desenvolvimento educacional da nação.

Essa é a minha proposta.

 Texto de José Cruz.
26.07.2009 

Depoimento de Poliana\

    Poliana Okimoto, que recentemente ganhou a medalha de bronze no Mundial de Maratona Aquática, respondeu às minhas indagações sobre o seu orçamento de atleta. Acompanhe o depoimento:

 
     “O Pinheiros foi o grande incentivador da minha carreira. Eles acreditaram em meu potencial, mesmo antes de dar algum resultado internacional. Quando passei das piscinas para as maratonas, houve muita dúvida se eu iria me adaptar ou não. Porém, o clube me apoiou muito na nova decisão, acreditando no meu trabalho.”

     “Além do Pinheiros, nadei em outros clubes, e desde 14 anos me mantenho entre as melhores nadadoras de fundo do Brasil. Desde então, tive incentivo, com ajuda de custo e bolsa de estudos, para continuar a treinar tranquila.”

     “A CBDA sempre pagou minhas viajens com a Seleção Brasileira (minha primeira Seleção, foi em 1997). Porém, não recebia ajuda de custo. Após minhas duas medalhas de prata no Campeonato Mundial de maratonas aquáticas, em Nápoles (2006), comecei a receber ajuda financeira deles”.

Análise

    Com essa declaração ficam claras: a importância do Clube Pinheiros na formação de Poliana e a comprovação de que o dinheiro que a CBDA recebe do patrocinador (Correios) e da Lei Agnelo Piva não chegava ao atleta. Pode até estar chegando, agora, depois da bronca do medalhista de ouro, Césa Cielo, logo após os Jogos de Pequim. 

     E a CBDA, é oportuno lembrar, tem patrocínio dos Correios desde 1991 e é contemplada com cerca de R$ 2 milhões anuais da Lei Agnelo Piva (via COB), desde julho de 2001.

       Portanto, não é exagero pedir que as confederações apresentem não só as suas prestações de contas, mas seus planejamentos de gastos com verbas públicas, justamente para se saber quanto está sendo destinado aos atletas de ponta. Afinal, eles são a razão de ser do esporte. Sem eles, não haveria necessidade de patrocínios de estatais e outras verbas públicas.

Por José Cruz

Wilson Reeberg escreve-me e pede que eu publique esta nota de esclarecimento. Diz Wilson que o título do post abaixo com a expressão “apesar do COB” não valeria para este caso. Wilson afirma que no caso do Atleta juvenil Vice Campeão Mundial foi o Comitê Olímpico Brasileiro quem pagou as despesas da viagem, por intereferência do atual interventor da Confederação Brasileira de Remo, colocado no cargo por determinação da Justiça, que afastou Rodney Araújo. Assim, quero deixar claro que os custos, segundo informações de Wilson Reeberg, neste caso, foram pagos pelo COB.

A expressão “apesar do COB” foi minha. E, na minha visão, ela fica valendo. Isto porque o COB não pode obter para si os louros dessa vitória do remo juvenil brasileiro, somente porque pagou essa conta. Durante anos o COB deu guarida e proteção à gestão conturbada e constestada de Rodney Araújo à frente da Confederação Brasileira de Remo. Como bem disse o Wilson Reeberg, no ano passado houve erro no planejamento do Atleta, o que lhe tirou a medalha. O COB náo fez nada e não pode ser isentado de culpa. O COB nunca mexeu um dedo para afastar Rodney de suas funções, porque esse lhe era um voto seguro nas eleições. Por nada jurídico e nem por qualquer desvio financeiro, o COB interveio na Confederação Brasileira de Levantamento de Peso. Em minha opinião uma intervenção absolutamente ilegal, segundo os estatutos e regulamentos do próprio COB. O COB atua com dois pesos e duas medidas. Assim, se o remo hoje anda mal e tem suas contas discutidas na Justiça, o COB também tem responsabilidade sim. Essa é a minha opinião.

%d blogueiros gostam disto: