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Por Fabiana Bentes.

Nesta última quarta-feira, fiz uma entrevista com o jornalista Jens Andersen, da ong “Play the Game” (www.playthegame.org.br) que investiga e analisa a corrupção no esporte, bem como os bons movimentos esportivos nos países.

Em breve, você irá conferir esta entrevista, mas gostaria de destacar uma importante frase que ecoou positivamente em meus ouvidos:

“O Brasil e o Rio de Janeiro estão dando uma oportunidade para os Jogos Olímpicos, não são os Jogos Olímpicos que estão dando uma oportunidade para o país ou para a cidade.”

Você já parou para pensar nesta visão? Eu parei e concordei com ele, imediatamente. Sabe por quê?

Neste mês de outubro, Jens veio ao Rio de Janeiro, ficou encantado com as maravilhas que a cidade oferece, principalmente no quesito hospitalidade. O carioca é amigo, é festeiro, é orgulhoso de sua cidade por mais problemas que a cidade tenha.

Tratamos, ou ao menos tentamos tratar, nossos visitantes muito bem, temos inúmeras coisas boas para se ver, comer, escutar, ver, praticar, usar, vestir, sentir e se orgulhar.

Definitivamente, não estamos numa cidade apática, numa cidade sem graça, o Rio de Janeiro respira alegria que contagia qualquer um. A cidade está no centro das atenções e não é porque receberá megaeventos, é porque a cidade é assim, o máximo!

Pare para pensar nas últimas cidades sedes dos Jogos Olímpicos: Atenas, Pequim e Londres. Sim, todas estas cidades são espetaculares, mas são cidades construídas por cidadãos, não por Deus. Rio de Janeiro é simplesmente o Rio de Janeiro, sem igual, sem precisar de nada muito sofisticado para justificar um excelente investimento para as férias.

É a cidade que, com apenas R$5,00, ou melhor U$2,50, você toma uma água de coco na praia e caminha pela orla, senta na Pedra do Arpoador e este mero passeio pode ser um dos programas mais inesquecíveis da sua vida. Uma cidade que, passeando pelas ruas, você para para tomar um suco e pode ser um dos melhores sucos que você já tomou na vida. É a cidade que você pega um ônibus e percorre a orla e fica impressionado com praias e mais praias maravilhosas, num passeio por uma metrópole que jamais você irá esquecer na vida! E isso é sem exageros! O Rio, realmente, proporciona algo espetacular!

Mas antes que você pense, vou logo avisando: o RJ tem problemas (posso descrever um monte aqui neste percurso maravilhoso) mas o importante é que o Rio de Janeiro não é o único a ter problemas e que precisamos dar valor por sermos os únicos com tamanha exuberância, nos sorrisos e na natureza.

Além disso, o importante desta reflexão é que esta cidade já é amada assim, simples, com toda a beleza do cidadão carioca e da natureza, e não serão os Jogos Olímpicos que farão dela especial. O Rio de Janeiro é que fará dos Jogos Olímpicos serem absolutamente especiais.

Só é preciso ter muita atenção! A população brasileira não pode deixar que o Rio de Janeiro, um patrimônio para o país, caia naquela necessidade extrema de agradar o gringo a qualquer custo. Nós já agradamos de forma simples e natural, fazer melhorias na cidade é absolutamente necessário, mas não para os Jogos Olímpicos, para nós mesmos, cariocas da gema e cidadãos brasileiros.

Obrigada Jens, por ter me ajudado a mudar a minha visão sobre os Jogos Olímpicos e o Rio de Janeiro.

Fabiana Bentes
Diretora Geral & Jornalista Responsável – Esporte Essencial – Memória Olímpica

Atualizado:
20/11/12 – 11h47

TCU aponta irregularidades no ciclismo e na canoagem

Luiz Ernesto Magalhaes para o Jornal O Globo

RIO – O Tribunal de Contas da União (TCU) identificou indícios de fraudes em licitações entre outras irregularidades na aplicação por entidades esportivas de recursos públicos destinados a oferecer melhor infraestrutura para atletas brasileiros se prepararem para os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro. As entidades acusadas são a Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC) e a Confederação Brasileira de Canoagem (CBCA), ambas com sede no Paraná, que terão que devolver ao Ministério do Esporte mais de de R$ 1 milhão dos R$ 4,8 milhões que haviam sido repassados por convênios firmados com as entidades em 2010. Os dirigentes das entidades ainda podem recorrer da decisão.

O acórdão da ministra Ana Arraes citando as duas entidades foi divulgado na última segunda-feira no Diário Oficial da União, pouco mais de um mês depois da presidente Dilma Rousseff ter lançado o Plano Brasil Medalhas 2016. O objetivo do programa é cumprir a meta do Brasil de terminar os jogos do Rio de Janeiro entre os dez primeiros colocados em número de medalhas. Para isso, o governo federal amentou de R$ 1,5 bilhão para R$ 2,5 bilhões em recursos do orçamento e patrocínios de estatais a verba destinada para o próximo Ciclo Olímpico (2013-2016). Ao todo, 21 categorias foram eleitas prioritárias para a distribuição dos recursos adicionais devido ao potencial de trazer mais medalhas. Ciclismo e canoagem fazem parte dessa relação.

De acordo com o Tribunal de Contas da União, em 2010, a Confederação Brasileira de Canoagem firmou convênios de mais de R$ 2 milhões com o Ministério do Esporte para implantar e estruturar três centros de treinamento de canoagem velocidade (Caxias do Sul, Rio de Janeiro e São Bernardo do Campo) e 4 centros de desenvolvimento de canoagem slalom (Foz do Iguaçu, Piraju- SP; e Primavera do Leste – MT) visando as Olimpíadas de 2016. Mas do total repassado, R$ 509.678,11 acabaram sendo penhorados judicialmente em lugar de serem usados para a finalidade original.

A prestação de contas da Confederação de Ciclismo – que é reincidente em irregularidades identificadas pelo TCU-, por sua vez é mais complicada. Segundo o TCU, R$ 523 mil foram pagos irregularmente em uma série de contratações de consultorias. Alguns assessores terceirizados contratados já eram funcionários da própria Confederação de Ciclismo. Esses funcionários passaram a ganhar por fora para desenvolver projetos que na verdade já seriam de atribuição da entidade. O primeiro-secretário da CBC, Marco Antônio Barbosa, foi contratado como coordenador-geral de pista enquanto que o segundo secretário, Hudson Henrique de Oliveira, assumiu a função de coordenador-geral de BMX. Uma terceira consultora contratada não era empregada da CBC, mas disputou a vaga com outras duas funcionárias.

”Os procedimentos adotados na realização dos três processos seletivos afrontam os princípios da impessionalidade e da moralidade”, informa um trecho do relatório do TCU.

O TCU porém, também criticou o Ministério do Esporte por ter repassado os recursos. “É inadmissível que o poder público ao celebrar termo de parceria o faça com entidade sem capacidade operacional para executar suas ações pois tal situação pode colocar em risco o próprio objeto do ajuste, vez que a entidade provada, por ausência de capacidade de gestão, pode não apresentar condições de executar as atividades e atingir os objetos pactuados” diz outro trecho do relatório.

As irregularidades teriam começado na própria concorrência que escolheu a Mundi Promoções e Eventos Ltda como consultora. A Confederação fez cotações prévias de preços em três empresas. Participaram a própria Mundi, a GMX Sports & Eventos e ASC7 Centro Esportivo. O TCU descobriu que a GMX foi aberta apenas em fevereiro de 2011, um mês depois da data em que teria sido contatada para fazer a cotação. Além disso, a GMX tem sócio em comum com a Sports & Eventos. Por sua vez, a Mundi que viria a vencer a licitação, não tinha qualquer funcionário nos anos de 2010 e 2011.

O TCU encontrou também indícios de superfaturamento na compra de 15 bicicletas de pista no valor de R$ 4.160 (R$ 62,4 mil no total). O modelo inexistente no mercado brasileiro poderia ter sido importado por R$ 1.307,63 a unidade. Ou seja, o valor superfaturado chegou a R$ 22.855.71 segundo o Tribunal de Contas..

Em junho, o TCU em outro processo também relatado por Ana Arraes, já havia determinado que a Confederação Brasileira de Ciclismo que devolvesse R$ 501.080,80 pagos pela compra de 220 bicicletas e capacetes sem que tivessem sido entregues. No processo, são citados como responsáveis solidários para devolver os recursos o presidente da CBC, José Luiz Vasconcellos e os proprietários da Seletto Peças de Bicicletas, contratada para fornecer os equipamentos. A exemplo da decisão tomada pelo TCU este mês, ainda cabe recurso.

Antes de abrir concorrência para a compra das 220 bicicletas, a CBC fez uma cotação de preços em três empresas: Seletto, Vzan Comércio de Peças e Pedala Comércio de Peças. realizada a licitação, a Seletto cobrou R$ 2.238,64 por unidade do modelo Speed Star 500. O modelo já deixou de ser fabricado mas como base de comparação, os técnicos do TCU encontraram a venda no mercado bicicletas semelhantes por preços mais baixos: R$ 936,78 e R$ 1.499 a unidade. Os R$ 501 mil pagos indevidamente referem-se a 50% do valor da compra e foram dados como adiantamento

O TCU constatou que havia vínculos mesmo que no passado entre essas empresas e o presidente José Luiz Vasconcellos. A Seletto que venceu a concorrência tem como sócio principal Jefferson Schiavon Marconatto já foi proprietário de outra empresa do ramo com uma irmã do presidente da CBC. O sócio majoritário da Vzam era de um dos imãos do presidente. Outro irmão de José Luiz Vasconcellos foi sócio majoritário da Pedala Comércio.

“A exposição e projeção mundial do país ao promover o evento implica exigir, em especial de modo preventivo, padrões mínimos de gestão e governança da parte das entidades beneficiárias”, diz um trecho do relatório da auditoria do TCU.

Procurados pelo GLOBO, os presidentes das confederações de ciclismo e canoagem não retornaram os contatos. O Comitê Olímpico Brasileiro (COB), por sua assessoria de imprensa, disse que não vai se manifestar sobre o assunto. Já o Ministério do Esporte emitiu a nota abaixo:

“O Ministério do Esporte vai apresentar as argumentações e os esclarecimentos solicitados pelo tribunal e aguardará os desdobramentos do processo de auditoria para avaliar eventuais consequências ao apoio que o governo federal dá às duas modalidades.

Todo ente privado que faz convênios e contratos com a administração pública deve guiar-se pelos princípios constitucionais de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência, que se aplicam aos convênios que o Ministério do Esporte celebra com as confederações das modalidades. Todos os convênios são fiscalizados pelo próprio Ministério e pelos órgãos de controle, garantindo transparência e correta aplicação das verbas públicas.”

Nuzman Some Outra Vez.

novembro 30, 2012

O presidente do COB, mais uma vez, deixou de comparecer a um debate sobre limitação dos mandatos dos dirigentes desportivos. Desta vez foi no Senado Federal. Não è a primeira vez que ele foge de debates. Costuma fazer isso todas as vezes que se sente acuado. É uma pena. Acho que Nuzman poderia contribuir muito com esse debate. Cada um tem o direito de achar o que quiser, defender o que lhe parece melhor. Isso é democracia. Mais democrático ainda é debater ideias com a sociedade. Nuzman é a favor da eternização da cartolagem em seus cargos. Seria muito normal que ele fosse ao Parlamento defender seu pensamento. Outros seriam contrários. E o Brasil poderia assistir a uma boa troca de ideias. Mas Nuzman prefere calar-se, sumir, privar a sociedade de um bom debate. Talvez Nuzman faça assim porque seus argumentos sejam fracos. Ou porque sequer tenha argumentos. Ou porque não tenha coragem de expô-los ao país, dando a impressão de que o que os cartolas querem, mesmo, é apenas ficar no poder para dele beneficiar-se sem dar pelota para os brasileiros.

A não ida de Nuzman ao Senado para dialogar sobre tema atual e palpitante é mais uma demonstração de que ele não está qualificado para exercer cargos de direção, uma vez que para isso o espírito democrático é essencial, ainda mais quando se trata de uma entidade que vive de recursos governamentais. E que não diga Nuzman que tinha outro compromisso, porque nada pode ser mais importante do que uma convocação do Senado Federal. Com sua ausência, Nuzman quer esvaziar a discussão sobre a limitação dos mandatos. Mas não conseguirá. Nuzman ficará parado no tempo, feito uma estátua de sal.

Ontem publiquei um e-mail que enviei ao Jornalista Alessandro Lucchetti, do Estadão, com algumas considerações sobre a matéria que ele publicou no domingo sobre o grande atleta Nelson Prudêncio. Hoje tive a grata satisfação de receber uma simpática resposta do Alessandro.

A resposta que o Alessandro enviou-me demonstra o alto grau de profissionalismo e do bom jornalismo que ele pratica, merecendo meu respeito e admiração.

E chamou-me a atenção que eu errei o nome dele. Em vez de Alessandro, escrevi Alexandre, pelo que me desculpei.

Agradeço ao Alessandro pela atenção que me dispensou.

Caro Alexandre,

Lí, ontem, a reportagem que Você escreveu sobre o morte de Nelson Prudêncio. Permita-me, respeitosamente, ressaltar que Você cometeu alguns descuidos. O primeiro deles ao citar o nome de meu avô, Major Sylvio de Magalhães Padilha. Você escreveu “Guimarães”. Acho que para escrever-se sobre esportes olímpicos, inicialmente, deve-se conhecer profundamente os personagens, principalmente Padilha, um dos mais importantes nomes do esporte brasileiro desde a década de trinta.

Padilha foi um grande atleta brasileiro, o primeiro da América do Sul a ser finalista olímpico em provas de atletismo. Em 1.939 ganhou da Helms Foundation, nos EUA, o troféu de maior atletas das Américas, em todas as modalidades. Portanto, a guerra muito provavelmente roubou-lhe uma medalha olímpica. Foi recordista e campeão brasileiro e sulamericano em várias provas. Um de seus recordes, nos 400 metros sobre barreiras, durou cerca de 30 anos.

Você descuida novamente ao relacionar meu avô à tenebrosa ditadura militar, dando a impressão ao seu leitor que ele foi presidente do COB em razão de alguma “botinada” de algum “milico”. Como jornalista que quer contar histórias sobre o esporte amador, é muito importante que a conheça muito bem. Meu avô NUNCA apoiou o golpe de 1.964. Nunca entrou no esporte por causa do golpe de 64. Foi o maior atleta de sua época e, ainda competindo, na década de 30, fundou o Departamento de Educação Física e Esportes de São Paulo. Regulamentou a prática da educação física no nosso Estado, criou as bases do “esporte para todos”, construiu praças desportivas e foi, sempre, o grande entusiasta da prática do exercìcio físico nas escolas. Meu avô não assumiu os cargos que teve, nunca, por ordem, por botinada, ou por canetada de militar.

Quando veio o golpe, em 1.964, ele já tinha uma folha enorme de serviços prestados ao desporto e, certamente Você desconhece, ela integrava o governo do presidente deposto, João Goulart. Em 1.964 meu avô era vice presidente do Conselho Nacional de Desportos, nomeado pelo presidente Goulart. Você sabe quem era o presidente do Conselho? Era o Deputado socialista Rogê Ferreira, um homem extraordinário e um dos grandes amigos que meu avô teve na vida. Quando Rogê foi cassado, imediatamente, no mesmo dia, meu avô demitu-se do Conselho em solidariedade ao amigo Rogê. Quando Rogê, fugido de Brasíla, com as baionetas dos milicos atrás dele, aterrisou em São Paulo, meu avô era a única pessoa a esperar por ele em Congonhas. E dey-lhe toda proteção e assistência. Ainda sobre a ditadura militar, não foram poucos aqueles que, perseguidos pelo regime, encontraram guarida na casa de meu avô. A família Zumbano (do nosso querido Eder Jofre), militava no PCB. Os Zumbano são sinônimo de boxe no Brasil. Waldemar Zumbano, outro faterno amigo de meu avô, foi preso, teve sua casa invadida pela ditadura. Se em algum momento meu avô exerceu sua autoridade militar, foi em ocasiões como essa, em que se dirigiu aos quartéis para desafiar a ditadura e ordenar a soltura de gente camarada que militava no esporte. Nas Olimpíadas de Tokyio, em 1.964, Zumbano integrava a delegação do Brasil. Foi detido no aerporto por algum milico de plantão e impedido de viajar por ser do PCB. Pois imediatamente meu avô disse que se Zumbano não embarcasse com a delegação, ninguém do Brasil embarcaria. E não hesitaria em tornar público o motivo tosco pelo qual o Brasil não participaria daquela edição olímpica. Zumbano foi imediatamente solto e o Brasil embarcou. Sugiro uma pesquisa junto à família Zumbano. O competente jornalista Fábio Altman é neto do Waldemar Zumbano. E pode retar-lhe esse e outros fatos.

Ainda sobre ditaduras, antes de 64, por duas vezes, em defesa do esporte, meu avô bateu de frente com o fascínora Getúlio Vargas, cujo Estado Novo perseguiu e matou tanta gente. Em uma delas porque logo após a guera trouxe para apresentar-se em São Paulo os “peixes voadores”, a equipe de natação do Japão, nação com a qual o Brasil não mantinha relações diplomáticas. Getúlio torceu o nariz e mandou que não se tocasse o hino e nem fosse hasteada a bandeira do Japão. Meu avô peitou Getúlio, o Estado Novo e a ditadura, mandando dizer ao presidente que “os desportistas japoneses seriam recebidos com todas as honrarias que mereciam”. E assim foi feito. Não por isso, meses depois, Padilha recebeu das mãos do Imperador do Japão a mais alta condecoração daquele país. Em outra ocasião, deu declarações públicas ao jornal Correio da Manhã, criticando severamente a forma impositiva e ditatorial como Getúlio regulamentou o esporte federal. Isso custou-lhe uma punição severa. Getúlio transferiu meu avô para Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, época em que à noite não havia água quente, nem luz elétrica. Isso lhe fez, ainda muito jovem, ser obrigado a abandonar o exército e ocupar-se, exclusivamente, de sua outra profissão, a de professor de educação física. Em 1.984, em uma das poucas vezes em que o ví falar em política publicamente, declarou-se a favor das “Diretas Já”. Eu, com 15 anos encantei-me com um novo partido que surgia, contra o Golpe. E comecei a frequentar o Partido dos Trabalhadores. Sabe quem me levava às reuniões e me esperava até elas acabarem? Sim, meu avô, o Major Padilha. Ninguém está obrigado a gostar dele, lógico. Mas querer dar a impressão de que ele ocupou algum destaque no esporte por força do regime militar é desconhecimento, ou má-fé. No seu caso, tenho certeza de que má-fé não foi.

Quanto ao tal relato que Você faz sobre a possibilidade de excluir o Prudêncio de Munique 72, isso nunca existiu. Posso assegurar a Você que meu avô tinha enorme, mas enorme mesmo, admiração pelo Prudêncio. Eu, com seis anos, ví o Prudêncio ganhar medalha em 72. Logo após a prova, meu avô pegou-me pela mão e levou-me para conhecer o nosso bi-medalhista, alí no túnel que dava acesso à pista. Foi um encontro emocionado e emocionante. No Pan do México 75 e na Olimpíada Montreal 76 Prudêncio não atingiu os índices. E eu me lembro muito bem certa vez meu avô dizendo em casa: “Eu não vou ficar tranquilo se o Prudêncio não for à competição”.

Há alguns anos, a Organização Não Governamental Sylvio de Magalhães Padilha, que realiza um trabalho social e esportivo em Paraisópolis, fez uma homenagem ao Nelson Prudêncio. Entregou-lhe um troféu. Durante seu discurso de agradecimento, ele, o próprio Prudêncio disse a todos os presentes que “o nosso barreirista Padilha foi muito importante para o nosso esporte”. Era uma época em que talvez Você não saiba, o esporte olímpico vivia com um teste de loteria esportiva em anos de Jogos Panamericanos e Olímpicos. Era uma época duríssima, em um país que nunca viu no esporte um meio de educação e saúde.

Sugiro que Você mergulhe na história do nosso esporte amador. Eu tenho muito material que terei imenso prazer em compartilhar com Você. Sobre o Major Padilha, veja o http://www.sylviodemagalhaespadilha.com.br .

Obrigado.

Abraços.

Alberto

De verdade, ontem fiquei muito impressionado com a possibilidade de o governo de São Paulo vender o maios complexo desportivo do Brasil, o Constâncio Vaz Guimarães. Eu treinei, competi, corri, nadei, assisti a bons jogos e espetáculos, tudo lá no Ibirapuera. Tenho certeza de que o Constâncio faz parte da vida de muitos brasileiros. Fiquei realmente tão estarrecido com a notícia que hoje à tarde resolvi passear pelo Constâncio. Olhar as obras de renovação, a pista, o ginásio, a piscina. Ainda há muita obra sendo feita. O terreno em que o Constâncio foi erguido era do exército, que foi cedido ao Estado. Há de se ver as condições jurídicas desse termo de cessão, para ver se a venda é possível.

Em cada uma das praças esportivas do Constâncio havia uma placa de bronze, discreta, com a data da inauguração e o nome do governador da época e de meu avô, Sylvio de Magalhães Padilha, Diretor do Departamento de Esportes e Educação Física do Estado de São Paulo, o DEFE. O DEFE fazia o papel da Secretaria de Esportes. Mais tarde o DEFE foi convertido em Secretaria. Na placa da pista de atletismo há também o nome do meu tio, Pedro de Magalhães Padilha, na época Secretário de Estado de Esportes, Turismo e Cultura. Nessa época meu avô era o Coordenador de Esportes do Estado. Com exceção da placa da piscina, ví que todas as demais, dos ginásios e das pistas foram devidamente removidas das paredes. Como disse, são placas discretas. Bem na entrada da tribuna de honra da pista de atletismo foi colocada uma nova placa grande, quase um monumento, com o nome do Governador Alckmin e do Secretário Pagura, celebrando as reformas feitas no conjunto. As anteriores, dos responsáveis pela idealização de tudo aquilo foram removidas. E, ao menos por enquanto, não foram recolocadas.

Escrevi um e-mail gentil ao Coronel Luiz Carlos Martins, Chefe de Gabinete da Secretaria de Esportes, com cópia para o Coronel Flaviano, diretor do Constâncio, noticiando o fato e solicitando a recolocação das placas. Conheci o Coronel Martins na semana passada, em um seminário. Fiquei com excelente impressão do Coronel Martins, uma pessoa comprometida com o esporte, que foi levada para a Secretaria pelo Lars Grael. Espero que o Coronel Martins tome as providências para recolocar as placas.

Meu avô era uma pessoa desprovida desse tipo devaidades. Tenho certeza de que ele não estaria nem aí para essas placas. Mas como eu não sou ele, pedi a recolocação das placas, repito, discretas. O Brasil já é um país tão desmemoriado, que vale a pena fazer o que for possível para que se respeite e se resguarde a nossa história.

Estarrecido, lí no blog do Juca Kfouri que o governo do Estado de São Paulo cogita vender o complexo esportivo do Ibirapuera, com o intuito de arrecadar dinheiro para integralizar o capital social da Companhia de Parcerias Privadas. Como se já não fosse suficiente a demolição da pista de atletismo Célio de Barros e da piscina Júlio Delamare, no Rio de Janeiro, São Paulo e o Brasil correm o risco de perderem um de seus maiores patrimônios poliesportivos. Tudo isso, no país que sediará os dois mais relevantes eventos desportivos do universo. Um contra senso.

Posso dizer, com muito orgulho, que meu avô, Sylvio de Magalhães Padilha, enquanto Diretor do Departamento de Educação Física do Estado de São Paulo, o antigo DEFE e atual Secretaria Estadual de Esportes, idealizou e fez construir todo aquele conjunto de instalações esportivas. São Paulo e o Brasil não tinham, até a década de quarenta, nenhum conjunto poliesportivo. Nessa época, o esporte e a prática da educação física não eram sequer regulamentadas. Com a criação do DEFE, o esporte foi normatizado. Construiu-se o conjunto poliesportivo Baby Barioni. E em seguida, aos poucos, foi sendo construído o complexo do Ibirapuera, o Constâncio Vaz Guimarães.

O Constâncio foi idealizado para também servir ao esporte de alto rendimento. E, assim, tem sido palco de muitos eventos esportivos memoráveis. Mas antes disso, aquele complexo foi criado para dar acesso à população de São Paulo à prática de esportes. E assim foi feito. O Ibirapuera já produziu bons atletas para o Brasil. E também tem proporcionado a muita gente, crianças, idosos, de várias classes sociais, o direito de ter acesso ao esporte como meio de lazer e qualidade de vida.

São Paulo não pode desfazer-se de um patrimônio público dessa magnitude, histórico e que cumpre importante função social. O governo há de encontrar outros meios para integralizar o capital social da Companhia de Parcerias Privadas.

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