A História e a Importância da Academia Olímpica Internacional.

Por Alberto Murray Neto, advogado, sócio de Murray -Advogados; ex atleta de atletismo do Esporte Clube Pinheiros; membro do Comitê Olímpico Brasileiro de 1.996 a 2.008; Primeiro presidente do Conselho de Ética do Comitê Olímpico Brasileiro (2.018 -2.020); Árbitro da Corte Arbitral do Esporte (dois mandatos); Graduado em Estudos Olímpicos pela Academia Olímpica Internacional (1.994); Árbitro do Qatar Sports Arbitration Foundation; Membro Benemérito do Conselho de Educação Física de São Paulo; Membro da Academia Olímpica Brasileira; Membro do Panatlhon Club de São Paulo; Presente a Doze edições de Jogos Olímpicos.

Desde a realização dos primeiros Jogos Olímpicos da era moderna, em 1.896, na cidade de Athenas, discutiu-se a ideia da criação de um organismo universal que pudesse “servir ao Movimento Olímpico”, contribuindo com a propagação e consolidação de seus ideais.

Os primeiros Jogos Olímpicos, havidos em Athenas, foram repletos de êxito. Assistidos por cerca de setenta mil pessoas, onze países, de quatro continentes, estiveram representados.. Entretanto, as duas edições subsequentes, em 1.900, em Paris, e em 1.094, e, Saint Louis, não alcançaram o mesmo sucesso e repercussão. Esse fato que, por uma lado, colocou em dúvida as expectativas quanto à possibilidade de continuação do Movimento Olímpico, por outro, fez cristalizar, com mais ênfase, a ideia de que para atingir seus objetivos, era necessário que o Olimpismo tivesse um centro um servisse para congregar a juventude atlética e propagar o ideais daquele movimento humanitário, cujo preceito fundamental era a integração dos povos por meio da saudável prática esportiva.

A primeira ação concreta tomada com relação à criação desse centro divulgador dos ideais olímpicos, deu-se por intermédio de Ioannis Chrysafis, professor de educação física e fundador da Academia de Ginástica de Athenas, além de amigo de Pierre de Freddy, o Barão de Coubertin. Na década de vinte do século passado, o professor Chrysafis, juntamente com um grupo de educadores gregos, lançou, firmemente, por meio da Sociedade Helênica de Ginástica Pedagógica, a ideia da criação de um ginásio de esportes que revivesse os Ideais Olímpicos manifestados desde a idade antiga e que servisse, também, como uma universidade popular.

Em 1.926, no Congresso Olímpico realizado na Suíça, discutiu-se concretamente a ideia da formação desse ginásio esportivo, com características de universidade popular, para resgatar aspectos e ideais observados a partir da experiência Olímpica havida na antiguidade. Coube ao professor Chrysafis, em nome do Comitê Olímpico Grego, expor e relatar aos presentes os planos visando a constituição do projeto.

O plano foi, desde o início, apoiado pelo Barão de Coubertin, que não escondia sua simpatia e preferência de qual tal projeto fosse desenvolvido na cidade de Olympia, berço do movimento que ele havia recriado em 1.896. Coubertin acreditava não ser possível divulgar o Movimento Olímpico nos novos tempos, sem que houvesse uma referência nítida aos ideais e princípios que nortearam os Jogos Olímpicos na antiguidade. Olympia era, portanto, o símbolo dessa união, o elo de ligação entre o pensamento olímpico da antiguidade e o movimento moderno que o Barão de Coubertin esforçava-se em ver cada vez mais forte. Além de levar consigo a simbologia de ser o berço do Olimpismo, Olympia, naquela mesma época, estava empenhada nas escavações do Santuário de Altis e na consolidação do museu arqueológico, o que também fazia crescer o entusiasmo de Coubertin.

Esse ginásio esportivo, com características de universidade popular, teve fundamental importância no desenvolvimento do ideal olímpico. Inicialmente, foi um centro de treinamento para jovens atletas, ao qual os adultos não tinham acesso. Posteriormente, transformou-se em um centro esportivo/cultural, no qual reuniam-se atletas, sofistas, filósofos e poetas, havendo um local específico para a realização de aulas.

No ano de 1.934, o Comitê Olímpico Internacional (COI), realizou sua sessão anual na cidade de Athenas. Houve celebrações para comemorar os quarenta anos de recriação do Movimento Olímpico, na qual foram revividas competições desportivas na forma em que ocorriam na Grécia antiga. Durante o congresso do COI, o secretário geral do Comitê Olímpicp Grego, John Ketseas, o professor alemão Carl Diem, tornaram-se grandes amigos. Essa amizade teve fundamental importância na criação da Aacademia Olímpica Internacional. O professor Diem, um colaborador próximo de Pierre de Coubertin, havia sido o responsável pela coordenação do revezamento que, pela primeira vez, conduziu a tocha olímpica, de mão em mão, de Olympia a Berlin, em 1.936.

Em 1.938, Carl Diem formula, oficialmente, ao Comitê Olímpico Grego a proposta de criação da Academia Olímpica Internacional. A proposta foi entusiasticamente aceita pelos membros do Comitê Olímpico Grego. Juntamente com Ketseas, Diem estabelece as normas gerais de funcionamento e objetivos da Academia Olímpica Internacional. Naquela mesma época, A. Volonakis, membro do Comitê Olímpico Internacional na Grécia, confirma a aprovação da lei pela qual fica estipulada a criação, na Grécia, da Academia Olímpica Internacional.

No ano seguinte, o Comitê Olímpico Internacional delibera a instalação da Academia Olímpica Internacional que, sob seus auspícios e patrocínio, “serviria aos ideais olímpicos”.

Entre os anos de 1.938 e 1.942, Ketseas e Diem reúnem-se várias vezes para debater as formas de funcionamento e atividades da Academia Olímpica Internacional. Entretanto, em 1.942, em razão das mesmas dificuldades financeiras enfrentadas pela Grécia em decorrência da segunda guerra mundial, Diem escreve a Avery Brundge, então vice-presidente do COI, propondo a instalação da Academia Olímpica Internacional em território norte-americano. Ketseas, contudo, mantém intacta sua ideia de fazê-la na Grécia e seus esforços fora, realmente fundamentais para que a instituição fosse para seu país.

Na sessão anual do COI realizada em Roma, em 1.949, a entidade aprovam unanimemente, a instalação da Academia Olímpica Internacional na Grécia. Caberia, então, ao Comitê Olímpico Grego, dedicar-se às formas de organização geral e de atividades a serem desenvolvidas pela Academia.

Diem e Ketseas, novamente, uniram seus esforços para a construção da Academia. Muitas dificuldades foram encontradas, desde a aquisição do terreno, até o erguimento das construções, até que a Academia pudesse estar em funcionamento. A inauguração da Academia Olímpica Internacional foi, finalmente, agendada para o verão de 1.961, para coincidir com a entrega ao governo grego, da finalização das obras de escavação do Estádio Olímpico da era antiga, a qual tinha sido executada às expensas do governo alemão. A partir daí, as realizações promovidas pela Academia Olímpica Internacional misturaram eventos de caráter esportivo e cultural, tendo enorme importância na consecução dos Ideais Olímpicos em todo o mundo.

A partir de 1.969, a Academia Olímpica Internacional passou a realizar chamada Sessão Anual. Atualmente, ao longo do ano, a Academia promove cerca de quarenta manifestações, que contam com a participação maciça de mais de três mil participantes.

De 1.961 a 1.967, os participantes das atividades desenvolvidas pela Academia Olímpica Internacional instalavam-se em tendas. Obras foram iniciadas em 1.961 e duraram até o ano de 1.981. Hoje a Academia Olímpica Internacional possui acomodações para aproximadamente trezentas pessoas, além de possuir prédios para administração, biblioteca com aproximadamente nove mil volumes, restaurante, sala de conferência para duzentas e cinquenta pessoas, com sistema de tradução simultânea em quatro línguas, facilidades esportivas e um moderníssimo centro de conferência, estudo e pesquisas do Movimento Olímpico, com auditório, salas de reuniões, espaços para manifestações culturais, exposições, salas para pesquisa e debates, inaugurado em 1.994.

O programa da Academia Olímpica Internacional contempla, entre outros, o seguinte: (a) Sessão Internacional para Jovens Participantes, cujos integrantes são enviados por seus respectivos Comitês Olímpicos Nacionais e Academias Olímpicas Nacionais; (b) Sessões específicas sobre temas relacionados ao Movimento Olímpico, com a participação de Comitês Olímpicos Nacionais,, Academias Olímpicas Nacionais, Federações Esportivas Internacionais, Associações de Medicina Esportiva, Jornalistas Esportivos, Juízes, Técnicos e Atletas; (c) Programas para educadores, diretores de escolas de educação física, bem como visitas que são feitas por grupos de estudos do Movimento Olímpico, provenientes de universidades, escolas e outras associações desportivas.

Os temas das sessões, dentre outros, voltam-se para o seguinte: (a) a história dos Jogos Olímpicos da era antiga; (b) a filosofia e a ideologia dos Jogos Olímpicos; (c) o impacto das artes e das ciências sociais nos Jogos Olímpicos; (d) o desenvolvimento dos Jogos Olímpicos da era moderna; (e) a contribuição do esporte para a criação de um mundo harmônico e pacífico, proporcionando às pessoas melhor qualidade de vida; (f) a violência no esporte; (g) a comercialização do esporte; (h) doping; (i) o esporte para todos; e (j) o “fair play.

Os objetivos da Academia Olímpica internacional, conforme estabelecido em seu estatuto, no artigo segundo, constituem na “criação de um centro internacional de cultura, dedicado à preservação e promoção do Ideal Olímpico; o estudo e a implementação de princípios educacionais e sociais baseados nos Jogos Olímpicos; a consolidação científica dos Ideais Olímpicos, em face dos princípios dotados pelos gregos da antiguidade; e a revivicação do Movimento Olímpico da era moderna, baseado no pensamento e na iniciativa do Barão Pierre de Coubertin.”

O Brasil tem, ao longo dos anos, tido presença marcante nas atividades desenvolvidas pela Academia Olímpica Internacional. Cabe ao Comitê Olímpico do Brasil selecionar e enviar seus representantes às atividades da Academia Olímpica Internacional. Ao retornarem, é dever dos representantes brasileiros entregar ao Comitê Olímpico do Brasil relatórios sobre suas participações, em que relatam as matérias discutidas nas sessões e demais ações praticadas.

A primeira participação brasileira na Academia Olímpica Internacional coube ao Major Sylvio de Magalhães Padilha que, em 1.977, na qualidade de presidente do Comitê Olímpico Brasileiro e Vice-Presidente do Comitê Olímpico Internacional, proferiu a aula magna de abertura dos trabalhos da instituição naquele ano. O Major Padilha também integrou a Comissão do Comitê Olímpico Internacional para a Academia Olímpica Internacional, tendo participado ativamente dos projetos por ela desenvolvidos.

O Movimento Olímpico da atualidade transcende as atividades esportivas, Hoje, Olimpismo não significa apenas “um físico saudável”, como se preconizava no passado. Olimpismo é esporte, cultura, história, meio ambiente, qualidade de vida, inclusão e diversidade. Por estar presente em variados segmentos da atividade humana, Olimpismo representa manifestação de caráter universal, com enorme impacto na sociedade. A importância da Academia Olímpica Internacional reside, justamente, no fato de ser ela, por meio de suas ações constantes, importante mola propulsora para manutenção e divulgação do Movimento Olímpico, cujo impacto na sociedade moderna é inegável.

O então presidente do Comitê Olímpico Internacional, Juan Antonio Samaranch, em discurso proferido no vigésimo quinto aniversário da Academia Olímpica Internacional, descreveu com exatidão a importância do órgão nos nossos dias: “É símbolo da unidade e da amizade entre os homens e os continentes, um esplêndido elo de ligação entre o passado e o presente, a tradição e modernidade, da Grécia antiga ao século vinte e um.” As palavras do presidente Samaranch demonstram, com clareza, o papel sociológico que o Olimpismo e, consequentemente, a Academia Olímpica Internacional têm no mundo contemporâneo.

Categorias olimpismo

Um comentário em “A História e a Importância da Academia Olímpica Internacional.

  1. Parabens por este artigo histórico. Fui lendo e esperava logo no texto a participação do vó SYLVIO PADILHA que coloca o nosso COB presente, em 1977. Vou guardar esse artigo. Obrigado MURRAY.

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