Meu Amigo Andrew Jennings.

Morreu, em 08.01.2.022, meu amigo Andrew Jennings. Fiquei triste. Estive pensando nele ultimamente. Fazia tempo que não nos falávamos. Creio que já deveria estar doente.

Quem me apresentou ao Andrew foi outro não menos brilhante jornalista, dileto amigo, José Cruz. Cruz é o responsável por meu profícuo relacionamento com o Andrew.

Durante anos mantivemos assídua correspondência e trocamos impressões sobre fatos do esporte internacional. Andrew foi o grande responsável pelo desmantelamento do esquema de corrupção no futebol. E, como consequência, em outras modalidades, que só passaram a manter regras de governança quando se assustaram com as repercussões do futebol. Colaborei modestamente com dois de seus recentes livros. Ao final, fiquei honrado com a menção de agradecimento que ele me dedicou em suas obras. Conversávamos muito, por e-mail, skype e, várias vezes, pessoalmente. Chegamos a dividir mesas de debates em conferências que tratavam do combate à corrupção no esporte mundial. Andrew me mandou uma mensagem entusiasmada, de cumprimentos, quando Carlos Nuzman foi preso. Pouca gente sabia do andamento das coisas e os caminhos que o processo estava tomando, em face de provas demolidoras contra o engendramento corrupto do Rio 2016. Andrew era uma dessas pessoas. Ele considerou a prisão daquela quadrilha uma vitória significativa. Na medida em que a coisa caminhava, Andrew era das poucas pessoas a quem eu confidenciava. Foram dez anos de luta quase que diária para prender aquela gente.

Certa vez, Andrew foi convidado para vir ao Congresso Nacional falar sobre desmandos no futebol brasileiro. Ele me ligou da Escócia, do campo onde morava, para dizer que só viria se eu estivesse com ele em Brasília. Tinha receio de ser agredido, ou até assassinado, pelo establishment do futebol. Queria que eu, como advogado, o protegesse de eventuais atos arbitrários que lhe pudessem atingir. Eu disse ao Andrew que ele não se preocupasse com isso. Apesar de tudo, o Brasil tem uma Constituição democrática e seu direito de informar e ser informado seria garantido. Além do que, ele era convidado do Congresso Nacional.

Durante os Jogos Olímpicos de Londres meu celular tocou. Andrew me disse “tem uma jovem jornalista brasileira que conheci aqui na Inglaterra. Ela vai voltar para o Brasil e quero que você a conheça. Vou passar o seu número para ela”. Andrew se referia à Camila Mattoso, começando na profissão e que, hoje, é a profissional respeitada que edita o Painel da Folha de São Paulo. Andrew tinha faro para detectar os profissionais promissores.

Foi dele que ouvi pela primeira vez a frase “notícia não é isso que você lê nos jornais. Notícia é aquilo que alguém está escondendo de você e não querem que você saiba.” A frase originalmente não é dele. Mas foi ele que me chamou atenção para ela.

Andrew Jennings fará falta. Seu jeito único que lhe fez ser o premiado jornalista da BBC.

Vamos continuar por aqui, caçando corruptos.

Categorias olimpismo

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