“Tributo ao Rei Pelé”, por Laurete Godoy

Laurete Godoy*

TRIBUTO AO REI PELÉ


16 de setembro de 2021 – você foi operado e estou atenta, acompanhando os boletins médicos. Rogo a Deus para que sua recuperação aconteça o mais rapidamente possível. E ela virá logo, tenho certeza, porque, além de forte, você é um vencedor…


Sabe, Pelé, lembro de você em janeiro de 1970, no vestibular da Fefis–Faculdade de Educação Física de Santos, procurando fazer o melhor entre corridas e exercícios ginásticos, saltos e flexões, quando, de repente, surgiu um grupo de turistas argentinos perguntando: “– Donde está Pelê?”. O navio ancorado no porto, eles desembarcaram e foram à Vila Belmiro atrás do grande craque. Informados sobre o seu paradeiro, seguiram para o Brasil Futebol Clube. Vi você solícito, rodeado de gente, conversando, sorrindo, posando para fotografias, distribuindo autógrafos. Tudo isso, em meio a uma prova de Atletismo, ansioso, tenso, cansado, suado, mas um verdadeiro cavalheiro, atencioso e gentil.


Durante o curso vi você lutando por ser um aluno comum, sempre participando, fugindo da posição de destaque, e presenciei um fato que faço questão de tornar público neste momento. Os alunos haviam ido para as aulas e, atrasados, apenas nós dois permanecemos no balcão da cantina. Você notou tristeza no olhar da dona Celina e perguntou o que estava acontecendo. Ela respondeu: – “É a Ilka, ‘seu’ Pelé, a sobrinha que me ajuda aqui na cantina. Acho que ela está com um problema muito sério nos pulmões”. Vi você retirar um papel da carteira, escrever alguma coisa e entregar a ela, dizendo: “– Tia Celina, não se preocupe. Estou indo para uma excursão no Japão, mas aqui está o nome e o telefone do meu procurador. O que a senhora precisar para a menina, seja o que for, seja quanto for, pode pedir para ele, que irei autorizá-lo a atender”. Em seguida, virou-se para mim e disse: “–Por favor, não quero que ninguém saiba disso”.


O Antonio Carlos Pereira foi seu colega de classe na faculdade. Alguns anos após a formatura, ele estava na Alemanha fazendo um curso para implantar em São Paulo o programa Esporte Para Todos e seguiu para Dusseldorf quando soube que você lá estaria para um evento público. Os alemães, compenetrados e disciplinados, estavam felizes enfrentando uma longa fila que se estendia por dois quarteirões, obedecendo ao cordão de isolamento, livro ou caderno na mão, apenas para receberem seu autógrafo. Você, na Alemanha, um verdadeiro rei.


O Pereira esperou quase duas horas para chegar perto de você. Escreveu e pediu que lhe entregassem o seguinte bilhete: “– Não sei se você se lembra de mim. Estudamos juntos na Fefis. Sou o Pereira (Cascão)”. Cascão era o apelido… Imediatamente você o procurou na fila e mandou-o aproximar-se. Parou o evento, deu-lhe um caloroso abraço e conversou com ele por uns dez minutos. Em seguida, chamou um senhor, pediu um cartão de visitas e disse-lhe: “– Se este meu amigo, o Pereira, precisar de alguma coisa, ou mesmo de dinheiro, seja quanto for, vai procurá-lo e você está autorizado a atendê-lo”. O Pereira surpreendeu-se com sua generosidade.


Tive a alegria de reencontrá-lo em 1996. Você estava seguindo para assistir à Olimpíada de Atlanta e prontificou-se a gravar um vídeo, homenageando a ex-diretora da Fefis. Encontramo-nos na Sala VIP do Aeroporto de Congonhas. Sorrindo, você posou para fotos e distribuiu autógrafos entre os membros da equipe de produção. O filme foi apresentado na festa em que a professora Rosinha Viegas recebeu o título de Cidadã Benemérita de Guariba. É impossível descrever a comoção que tomou conta da assistência quando você apareceu no telão, fazendo comentários elogiosos sobre a ilustre homenageada. Você foi longamente aplaudido pelos guaribenses, proporcionou momentos emocionantes e, por isso, inesquecíveis. Você possui a fidalguia que caracteriza os verdadeiros heróis.
Sabe, Pelé, sinto uma alegria imensa por tê-lo conhecido e convivido com você, por dois anos, na Faculdade de Educação Física de Santos.


Há 40 anos, em Paris, os jornalistas do L’Equipe o elegeram Atleta do Século e você foi, realmente, o melhor entre os melhores. Além da inquestionável potencialidade atlética, visão de jogo, passes perfeitos, bicicletas, eficientes cabeçadas e gols maravilhosos, outros motivos levam-me a aplaudi-lo. Você jamais fez propaganda de cigarro ou bebida alcoólica, substâncias prejudiciais à saúde. No campo era disciplinado e, fora dele, nunca infringiu a lei. Você era bom profissional, tratava imprensa e admiradores com cordialidade, foi decente e gentil. Sempre honrou a camisa do seu clube e engrandeceu o nome do seu país. Chegou a parar uma guerra e circulava pelos países que o recebiam debaixo de aplausos. Você foi embaixador do Brasil no mundo e nunca lesou, fraudou ou enganou.


Há quem o critique? Claro! Não somos moedas de ouro. Só elas agradam a toda a gente…


Mas, pensando bem, Pelé, acredito que de todos os títulos que você recebeu ao longo da sua carreira, nenhum é tão emblemático quanto o de Atleta do Século.


CEM LONGOS ANOS, NOS QUAIS VOCÊ REINOU SOZINHO.

*Laurete Godoy é pesquisadora e escritora.

Categorias olimpismo

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