A Participação do Brasil Nos Jogos Olímpicos de Tokyo.

A participação do Brasil nos Jogos Olímpicos de Tokyo foi boa. Além do enfrentamento à pandemia (o que atingiu todos os Comitê Olímpicos Nacionais), há de se levar em conta que, no meio do ciclo de preparação, o Comitê Olímpico do Brasil (COB) passou por uma grave crise institucional. Teve seu então presidente preso, acusado de corrupção e, com ele, saíram definitivamente do cenário esportivo pessoas de sua confiança que faziam parte do dia-a-dia da instituição. O COB foi suspenso pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) e, em tempo recorde, foi obrigado a modernizar-se e democratizar seu estatuto. Ainda que o afastamento do antigo presidente e de sua gente (pelo que tanto lutei e, modestamente, contribui) tenha sido um ponto positivo para o esporte, a ruptura institucional não deixa de ser mais um obstáculo a ser superado. E foi.

Minha avaliação positiva da participação do Brasil não se dá exclusivamente pelo aumento do número de medalhas. Nunca dei muita pelota para quadro de medalhas. Oficialmente, isso não existe. O COI não conta medalhas. Jogos Olímpicos, como preconiza a Carta Olímpica, não têm país vencedor. Quadro de medalhas cada um interpreta como quer. Há inúmeros critérios. Se forem avaliados os números de ouros obtidos, os Estados Unidos aparecem na frente, seguidos por China, Japão, Grã Bretanha e o tal “Comitê Olímpico Russo”. Se quiserem levar em consideração o PIB de cada nação versus o número de medalhas obtidas em Tokyo, San Marino ganha de lavada, seguido por Granada, Jamaica, Geórgia e Quirguistão. Se quiserem analisar o quadro de medalhas segundo a população de cada nação versus pódios conquistados, novamente San Marino dá de lavada, seguido por Bermudas, Granada, Bahamas e Nova Zelândia. Em ambos os casos, o Brasil aparece lá no final da fila.

Meu julgamento sobre a participação do Brasil, ao considerar uma boa participação, não leva em conta o quadro de medalhas. Note que nas últimas Olimpíadas o número total de medalhas do Brasil varia pouco. O que me deixou satisfeito (além das medalhas conquistadas, é claro), foi um número maior de atletas chegando às semifinais e finais, ou melhorando suas performances pessoais. É muito mais relevante haver um número maior de gente disputando entre os melhores do mundo, do que algumas medalhas esparsas e mais nada. Acho, ainda, que Jogos Olímpicos não são lugar para “ganhar experiência”. Isso ocorre em campeonatos nacionais, continentais, mundiais, meetings, copas do mundo. Jogos Olímpicos devem reunir os melhores entre os melhores. É o altíssimo rendimento. Prefiro sempre uma delegação mais enxuta, porém com mais força esportiva de lutar pelas semifinais, finais e pódios. E é assim que o COI também vê os Jogos Olímpicos.

Claro que o Brasil poderia muito mais do que tem conquistado nos últimos anos. Um país enorme, miscigenado, com um litoral gigantesco, seguramente é capaz de produzir talentos em múltiplas modalidades. O COB e as Confederações lutam, entretanto, contra um absoluto descaso por parte dos níveis de governo com relação ao esporte. Nunca tivemos uma política de esporte de Estado para o Brasil. Todos os bilhões de Reais investidos para os malfadados Jogos Panamericanos de 2.007 e Rio 2.016 resultaram em quase nada para os atletas e zero em legado (leia meu artigo, neste Blog, de 31 de março de 2.021, em que esquadrinho item a item, em detalhes, como o dinheiro gasto com o Rio 2.016 esvaiu-se pelo ralo e viraram casos de corrupção até hoje mal explicados).

Enquanto o governo federal, em parceria com os governos estaduais e municipais, não colocarem o esporte como um fator prioritário de educação, lazer e saúde pública, vamos continuar celebrando uma ou duas medalhas a mais no quadro total. Ou lamentando quando esse número diminuir. A educação física não apenas deve ser disciplina obrigatória nas escolas, mas, além disso, deve ingressar na grade escolar com a mesma relevância que o português, matemática, história, geografia, física, química, biologia e as demais. Aulas de educação física não são recreio. Por isso, os professores de educação física não podem ser tratados como “professores de segundo escalão”, como comumente se vê. Devem ser valorizados e bem remunerados. Escola é local para se aprender. Porém é, sim, local para se detectar talentos, não apenas na educação física, mas em português, matemática, física, química e em tudo mais. E esses talentos devem ser encaminhados para os centros de excelência. Os governos devem investir nos centros de excelência esportiva e democratizar o acesso ao desporto. Pode, ainda, promover convênios com entidades como SESI e SESC, que possuem ótimas instalações. Os clubes formadores e mantenedores de equipes de base e alto rendimento devem ampliar seus contingentes de atletas militantes.

No dia em que o Brasil puser em prática uma política de Estado para o desenvolvimento do esporte, tirando da quantidade a sua qualidade, em três, ou quatro ciclos Olímpicos, estaremos brigando de igual com Estados Unidos, China, San Marino, Jamaica, Granada, ou Bahamas, seja lá o quadro de medalhas que escolham para analisar.

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Um comentário em “A Participação do Brasil Nos Jogos Olímpicos de Tokyo.

  1. No que concerne ao crescimento do número de medalhas que o COB e a mídia estão exaltando, isso só ocorreu devido aos novos esportes incluidos no programa dos Jogos de Tóquio (no caso do Brasil em específico o Surf e o Skate que deram 4 medalhas ao Brasil – o ouro no Surf e as 3 pratas no Skate).

    Se não fossem estes dois novos esportes a campanha do Brasil em Tóquio seria inferior a do Rio 2016 (tanto em ouros, quanto em pratas e total de medalhas).

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