Meus Encontros com Fidel Castro.

Estive em Cuba em 1.991. Fui ao país acompanhando meu avô, que lá esteve como primeiro vice-presidente da ODEPA (atual Panam Sports) e membro do COI.

Minha viagem ao país me proporcionou quatro encontros praticamente privados com Fidel Castro. O primeiro deles foi no “Palacio de La Revolución”, sede do governo. Fidel ofereceu um banquete de primeiríssima qualidade, que superou em muito vários outros que presenciei no mundo Olímpico, cujos anfitriões eram membros da realeza europeia. No jantar de Fidel havia caixas e caixas de lagostas vivas. Os convidados escolhiam quais delas queria comer, o “lagosteiro” a pegava com uma espécie de garfo enorme e punha na grelha, alí na nossa frente. Comiam-se lagostas frescas, além de tantos outros frutos do mar. Nesse jantar, além dos mandatários do mundo Olímpico, estavam empresários norte-americanos, entre eles Ted Turner e Jane Fonda, políticos dos EUA (o prefeito de Atlanta, cuja cidade seria sede dos Jogos Olímpicos em 1.996), diplomatas e alguns ministros do governo cubano.

Fidel era um ditador simpaticíssimo. Um sujeito educado, elegante, carismático, globalizado e que falava inglês fluentemente, embora em público não gostasse de demonstrar que falasse tão bem o idioma. Passamos horas falando sobre vários temas. Depois desse primeiro encontro, houve mais três, sempre com pouca gente e com a possibilidade de conversar bastante. Fidel queria ser aceito no Movimento Olímpico. Anos antes dera uma entrevista à TV Cultura em que esculachou o Olimpismo e, em especial, o presidente da ODEPA, o mexicano Mario Vazquez Raña, o magnata dono UPI e da mídia de seu país (uma espécie de Roberto Marinho mexicano). A entrevista agressiva de Fidel, em que atacou firmemente uma pessoa importante do Movimento Olímpico, colocou o caudilho fora do mundo internacional dos esportes. Fidel queria reparar o erro e ser definitivamente aceito no mundo Olímpico. Lembro-me que em um desses encontros, Mario Vazquez Raña presenteou Fidel Castro com um relógio de ouro maciço cravejado de diamantes (vistoso, mas cafona, para os meus padrões). Castro retribuiu o mimo oferecendo à Paquita, mulher de Vazquez Raña, uma jóia não menos valiosa. A parceria entre ambos deu tão certa que não só Fidel passou a frequentar o COI, mas também a utilizar o jato privado de Vazquez Raña sempre que queria viajar a algum lugar em caráter não oficial. Fidel pedia e Mário Vazquez mandava o avião.

Durante meus dias em Cuba, fugi da “bolha” que nos colocaram. Queria sair às ruas sem guardas costas, conversar com o povo, ir a lugares que não estivessem previamente preparados para nos receber. E assim o fiz por algumas vezes. Em uma noite clara, de lua cheia, fiquei eu, um amigo argentino e um guarda de rua de Havana conversando na cidade velha por mais de duas horas. Foi curioso entender o conceito de democracia daquele oficial e saber dele os planos de defesa para um eventual ataque surpresa dos EUA à ilha.

Em Cuba havia taxis para turistas e outros para os locais. Ví em outra noite um táxi para estrangeiros ser parado e um cubano ser retirado lá de dentro debaixo de pauladas. Foram presos o motorista e o pobre do cubano. Em outro dia aluguei um carro e fui até Varadero. Praias bonitas, mas cujos cubanos não podiam entrar, a não ser aqueles que trabalhavam nos hotéis e que estavam ali para servirem aos hóspedes estrangeiros. Eu ví cubanos serem abordados na praia pela polícia cubana, para que se identificassem e mostrassem que estavam ali trabalhando para algum resort. Os que não tinham essa autorização saiam da praia aos trancos e barrancos.

Também de carro, fui a cidades que não sabia os nomes. Dirigia a esmo pelo interior do país e parava nos povoados. Descia, andava, conversava e prestava atenção em placas.

Ví as duas faces de Cuba, aquela faustosa, repleta de luxos, oferecida pelo mandatário Fidel e a outra, aquela do povo, do dia-a-dia. Duas realidades completamente díspares. O fato é que Cuba saiu de uma tirania perversa, comandada por Fulgêncio Batista, para cair em outra, de Fidel Castro. Enquanto a ditadura de Fulgêncio fazia de Cuba um prostíbulo a céu aberto, a de Fidel fechou os jornais, censurou a imprensa, prendeu intelectuais dissidentes. Em ambas nunca houve eleições livres e diretas, tampouco liberdade de expressão. Para mim, não existe ditadura boa e ditadura ruim. A ditadura é sempre perversa e deve ser combatida.

Quando vejo, hoje, o povo cubano nas ruas protestando contra a ditadura, recordo-me da minha viagem àquele país. Saí de Cuba achando que a abertura política seria irreversível e que não demoraria muito. Os mais jovens com os quais conversei não tinham aquela “relação de sangue” com a revolução de Fidel. Aquilo tinha ficado para trás, era coisa de seus avós, talvez pais, em alguns casos. A juventude queria mudanças, questionava o regime. Não podiam, claro, dizer aquilo abertamente. Mas era o que ouvia nas inúmeras conversas que tive.

Cuba é um país muito bonito, banhado pelas límpidas águas caribenhas. Sofreu nas mãos de Fulgêncio, depois nas de Castro. Espero que esses movimentos populares em Cuba sejam um caminho sem volta rumo à democracia. Que o agradável povo cubano possa, finalmente, ser o senhor de seus destinos. Que seja um país livre e democrático.

Categorias olimpismo

Um comentário em “Meus Encontros com Fidel Castro.

  1. Alberto, mais uma do advogado do esporte, que de fato, é um jornalista, aprendi um pouco mais sobre CUBA, viajei contigo nesse texto. Parabéns meu amigo.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close