“A Cesar o que é de César”. O Complexo Esportivo do Ibirapuera, no Texto de Laurete Godoy.

A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR

            Quem é do esporte, por certo ficou feliz quando soube que o governo de São Paulo usou as dependências do Conjunto Desportivo Constâncio Vaz Guimarães, ou Ginásio do Ibirapuera como é mais conhecido, para ali instalar um hospital de campanha. E, com isso, ajudar na assistência das vítimas de um carrasco denominado Coronavírus que, numa velocidade incrível, colocou o mundo inteiro de cabeça para baixo no primeiro trimestre de 2020.

E, como um assunto puxa outro, quem conhece o Ginásio do Ibirapuera, por certo voltará no tempo para reviver alegres emoções. A edificação é de tal excelência, que foi cenário de campeonatos mundiais de vários esportes e de memoráveis shows musicais, espetáculos culturais e de lazer: Holliday On Ice, David Copperfield, a Ópera Africana Shangô Oba Koso, Programa Criança Esperança, a Recepção e homenagem aos Imperadores do Japão, que convulsionou a colônia japonesa, levando-a a ocupar totalmente as dependências do ginásio, além de inúmeros outros eventos concorridos e aplaudidos.

Quantos esportistas famosos transitaram por aquelas instalações! Um deles foi Bob Beamon, recordista olímpico e mundial de salto em extensão e herói da Olimpíada do México, em 1968. Com receio de cometer injustiça, do Brasil citarei Adhemar Ferreira da Silva, Nelson Prudêncio e o querido João do Pulo, os três, saltadores de projeção internacional, por meio dos quais reverencio todos os campeões brasileiros dos demais esportes.  Quantos ali receberam os ensinamentos que os transformaram em astros de fama internacional!

Tudo isso é justificável, afinal, estamos falando do maior complexo esportivo da América Latina, conquistado graças à visão e empenho de vários administradores. O bom senso nos diz que não existe trabalho isolado. O êxito de qualquer empreendimento será resultado da ação de várias pessoas e o mérito não poderá ser imputado a apenas um executor. Porém, sempre haverá nomes que emergem naturalmente e se destacam entre todos os demais.

No caso do Ginásio do Ibirapuera, várias pessoas trabalharam para o sucesso da empreitada, porém, ter conseguido instalar uma edificação daquela magnitude, em uma zona nobre da cidade de São Paulo, inegavelmente, é mérito do Major Sylvio de Magalhães Padilha.  Um olhar atento pela vizinhança do ginásio faz-nos perceber que aquele terreno está inserido em uma área que possui apenas edificações do Exército Brasileiro. E foi esse o empenho do Major Padilha, homem do esporte e da administração pública, com ampla visão de oportunidade, na época, possuidor de prestígio nacional e livre trânsito entre as esferas governamentais. Mediante permuta e muito empenho, ele conquistou aquele espaço privilegiado, para o governo do estado de São Paulo construir instalações esportivas que integrariam as comemorações do IV Centenário da Cidade de São Paulo.

Finalmente, no dia 25 de janeiro de 1957 foi oficialmente inaugurado o imponente ginásio projetado pelo arquiteto Ícaro de Castro Mello, também atleta de fama internacional, que havia participado da Olimpíada de Berlim, em 1936.  Aos poucos, durante a gestão do Major Sylvio de Magalhães Padilha no DEFE – Departamento de Educação Física e Esportes do Estado foram ocorrendo outras importantes construções que concederam àquele espaço, um papel diferenciado no cenário esportivo internacional.

Como um assunto puxa outro, lembrei que, quando em 1995 o professor Antonio Carlos Pereira assumiu a direção do Complexo Esportivo do Ibirapuera, estranhou que nas várias edificações, não havia uma placa sequer, identificando em que gestão governamental ocorrera a construção, nem o nome do diretor do DEFE na época ou data de inauguração da obra. Conclusão: tudo havia sido retirado. Para “dar a César o que era de César”, o diretor se juntou aos operários e iniciou uma busca rigorosa pelos vários depósitos do Ibirapuera. Finalmente, encontrou amontoadas e escondidas, as placas identificatórias: o Major Sylvio de Magalhães Padilha fora o ilustre responsável por aquelas construções. Resgatou todas as placas e, após recuperação, determinou que fossem recolocadas no honroso lugar, de onde nunca deveriam ter sido retiradas.

E, como um assunto puxa outro, para alegria do saudoso professor Henrique Nicolini, foi durante a gestão do panathleta “Pereirinha” que ocorreu uma bonita solenidade, para colocação de uma placa do Panathlon Club de São Paulo, na entrada da pista de Atletismo do Complexo Esportivo do Ibirapuera. Mais do que justo, afinal, o lema do Panathlon é LUDIS IUNGIT – O ESPORTE UNE.

Mas, neste maio de 2020, no Complexo do Ibirapuera, não está ocorrendo a união pelo esporte. O lema agora é: UNIDOS PELA SAÚDE.  Nas primeiras 48 horas de funcionamento, o hospital de campanha ali instalado pelo governo do estado, atendeu a 58 pacientes com Coronavírus…

Que Deus os proteja e a todos os profissionais da Saúde que estão participando dessa batalha!

 

Laurete Godoy é panathleta, pesquisadora e escritora.

Categorias olimpismo

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