A Saída do Conselho de Ética e o Futuro do Comitê Olímpico do Brasil.

Agradeço profundamente a todas as Confederações, Atletas, Acadêmicos, pessoas do esporte que me incentivam e que ajudam a ter a segurança que sigo no caminho certo. São muitos apoios que me sensibilizam. Vamos construir um esporte melhor, transparente e efetivo. O novo estatuto do COB determina que os candidatos a Presidente e Vice-Presidente podem ficar até abril. Achei ético sair antes. Abaixo a carta aberta que encaminhei à Comunidade do Esporte. Um abraço a todos.

Carta Aberta de Alberto Murray à Comunidade do Esporte

1. Entreguei hoje, ao Presidente do Comitê Olímpico do Brasil, COB, o meu pedido de afastamento definitivo das funções de membro do Conselho de Ética, posto ao qual fui eleito, democraticamente, por expressiva e majoritária votação, no pleito acontecido em 23 de março de 2.018.

2. Meu pedido de afastamento ocorre em obediência ao que preconiza o artigo 23, parágrafo terceiro, do estatuto do COB, em que os candidatos à presidente e e vice-presde deixem seus cargos na entidade até abril.

3. Agradeço publicamente à Assembleia Geral do COB, que me confiou tão importante e dignificante missão. Manifesto meu extremo respeito às Confederações Esportivas, aos integrantes da Comissão de Atletas e, ainda, aos preclaros representantes do Comitê Olímpico Internacional, o COI, aqui no Brasil, visto que são eles os Embaixadores do Movimento Olímpico entre nós, Bernard Rajzman e Andrew Parsons. Meu reconhecimento a todos os competentes departamentos e funcionários do COB, pelo auxílio ao Conselho de Ética.

4. Nestes dois anos, quando presidi o Conselho de Ética, procurei fazê-lo com equilíbrio e serenidade, de modo que tal organismo ocupasse uma justa e correta posição de destaque no cenário Olímpico. Ressalto que isso apenas foi possível em razão, também, da atuação brilhante dos meus quatro colegas de Conselho, pelos quais nutro respeito e amizade.

5. Recordo que, entre 1996 e 2008, já havia ocupado uma posição de membro do COB. Então, ao constatar que o nosso Movimento Olímpico enveredava através de caminhos sombrios, tortuosos, equivocados, não hesitei em denunciar, ao Brasil e ao mundo, todos os malfeitos em curso. Na maioria das vezes, fui voz isolada, numa época em que o país se inebriava com a fantasia de um embuste oficial chamado Rio 2.016. Não desisti, porém. A minha vida dedicada ao esporte e a minha experiência me asseguravam a confiança de que minhas críticas eram procedentes. De fato, uma década depois, aquela nefasta estrutura de poder descambaria num fim trágico, capaz de mergulhar o Olimpismo do Brasil no pior momento da sua história, a ponto de receber, do COI, a marca indelével de uma suspensão nas suas atividades internacionais. Rigorosamente, tudo aquilo que eu havia denunciado se comprovou, inclusive na Justiça. Essa era ainda deixa resquícios, que precisam acabar em definitivo. Esses resquícios estão cada vez mais evidentes. Aquela era não terminou. Ela seguiu por seu sucessor, por ele escolhido a dedo.

6. Nunca hesitei em me colocar na defesa intransigente dos direitos dos Atletas. Se hoje os Atletas têm voz e tem voto na Assembleia Geral, isso não sucedeu pela bondade, ou pela concessão de alguém. Foi efetivamente uma conquista deles próprios e de quem lutou ao seu lado. Não há mais sentido, hoje, manter os Atletas distantes da administração diária do desporto. Os Atletas, afinal, são a razão precípua de as Confederações e o COB existirem.

7. Igualmente, eu nunca me escondi da batalha pelos direitos de uma verdadeira autonomia das Confederações Desportivas. Sempre me coloquei como um crítico obstinado do sistema central de poder estabelecido, no qual as Confederações se submeteriam aos humores de uma só pessoa quando intentassem realizar os seus projetos mais importantes. Defendi, sempre, a autonomia das Confederações e o estabelecimento de critérios claros de distribuição integral de recursos, de modo a eliminar qualquer sistema medieval de vassalagem. Confederações não podem, jamais, se ajoelhar à espera de recursos que, a bem da verdade, se originam nos cofres estatais. O COB deve ser a casa das Confederações.

8. Em 1994, ano em que estudei na Academia Olímpica Internacional, em Olympia, Grécia, participei de um painel de debates sobre a importância de se conceder, às várias Confederações nacionais, em cada modalidade específica, as condições para que caminhassem com as próprias pernas. Já era imprescindível, então, que as Confederações fossem assessoradas e apoiadas de forma que todas pudessem ter os seus próprios patrocínios. As estatísticas já demonstravam que parecia destinado ao fracasso o velho sistema em que um órgão centralizador recebe, controla e distribui todos os recursos indispensáveis, um vício das nações esportivamente de menor destaque. Naquele painel de debates, em 1994, em Olympia, em pleno berço dos Jogos, concluiu-se pela obrigatoriedade da descentralização do poder, da redução da burocracia, da valorização das Confederações. Meritocracia é importante. Mas para que todas as Confederações possam obter os méritos desejados é importante dar a elas condições para tal.

9. Nem tudo que é legal é legítimo. E nem tudo que é legítimo é legal. Alegar que determinado processo é legal não basta para lhe dar legitimidade. Apenas se alcança a legitimidade quando existem o diálogo prévio, democracia, amplo debate com as partes interessadas, lealdade e respeito diante das opiniões contrárias. A legalidade se consegue, muitas vezes, com o ardil, com a força, na marra. Obter a Legitimidade depende da boa-fé e dos bons princípios. Por isso, nem todo documento que contém aparência de legalidade é legítimo. Não representa os anseios da maioria.

10. Não negocio valores, como advogado e nem como pessoa do esporte. São muito profundas as minhas raízes no esporte. O Olimpismo é uma filosofia de vida. E eu a pratico totalmente, desde meus tempos de atleta.

Respeitosamente.

Alberto Murray Neto

Categorias olimpismo

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