Retroceder Na Ética Esportiva, Jamais!

Quando o antigo presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB) foi preso nao havia outra alternativa senão, finalmente, entre outras coisas, implantar as tão desejadas regras de governança e ética na entidade. Ao assumir a presidência do COB, Paulo Wanderley tratou de priorizar essa questão e, em pouco mais de um mês, coordenou a alteração estatutária de forma a torná-lo um dos mais democráticos do mundo, com garantias plenas de funcionamento independente dos órgãos de controle, compliance, do Conselho de Ética e de seus Comitês de Integridade e Conformidade. Por isso, eu fui o primeiro a elogiá-lo em todas as minhas palestras, conversas e artigos. Nesse período, o Conselho de Ética agiu com absoluta independência, sem que em qualquer momento tenhamos sido abordados por qualquer outro poder do COB. Proferimos decisões muito relevantes que foram cumpridas pelas partes.

Ontem, para minha supresa, no início da noite, recebi um e-mail do presidente do COB no qual ele me informava sobre a existência de uma AGE que ocorreria no dia seguinte, com o intuito de modificar o estatuto. De fato, o próprio estatuto previa que sua revisão era necessária a cada dois anos. O que me assustou é que recebi um texto pronto, que deveria ser aprovado pela assembleia geral dali a poucas horas.

Eu lí a proposta do novo estatuto. Fiquei estarrecido. O texto propunha retrocessos enormes às conquistas que o Movimento Olímpico havia logrado nos quesitos ética e conformidade. Além de mal escrito, com equívocos crassos de português, o texto era uma aberração jurídica que, entre outras coisas, contrariava a Carta Olímpica e as recomendações do Comitê Olímpico Internacional (COI) nas questões de governança. Comecei a fazer o caminho inverso e tentar entender de onde havia partido aquele monstrengo.

Feitas as minhas investigações e baseado, também, em matérias que estavam sendo veiculadas pela imprensa, com narrativas e provas de fatos que consideramos gravíssimos, tirei minhas conclusões. Passava a fazer sentido o desejo de esvaziar, dificultar, ou até mesmo impedir as ações dos mecanismos de controle de ética, integridade e conformidade.

Saí a campo. Uma das atribuições do Conselho de Ética do COB é justamente zelar pelas boas práticas de governança e estabelecer os parâmetros éticos da instituição. Ficar calado seria agir de forma anti-ética e descumprir a minha missão. Seria trair aqueles que me confiaram seus votos para que eu lutasse por um esporte limpo. Verifiquei que estava sendo tudo feito a toque de caixa, de maneira muito esquisita. Haviam alterado, às pressas, a reunião do Conselho de Administração e a assembleia geral, anteriormente marcada para o dia 25 de novembro (publicada no website do COB), também teve sua data alterada. Mais grave ainda era o fato que todas as pessoas com as quais eu falei não tinham tido acesso ao texto da minuta do estatuto que seria objeto de discussão no dia seguinte. Nem os membros do Conselho de Administração tinham tido acesso anterior ao texto. Foi tudo feito em cima da hora, à sorrelfa, à socapa. Ora, mudança estatutária é o que de mais relevante há para se deliberar. Não me parecia ético agir daquela maneira. Dava a impressão que havia sido engendrado um esquema para aprovar as pressas um documento mal feito, repleto de erros e, pior, que retirava direitos dos Atletas e esvaziava o Conselho de Ética. Eu trabalhei para que o tal esquema não funcionasse. Contatei vários integrantes da Assembleia Geral, entre Atletas e dirigentes e eu expus a  grave questão que teriam que enfrentar. Eu não podería, nunca, permitir que as conquistas obtidas fossem jogadas na lata do lixo. Felizmente, a ética venceu o atraso. Eu agradeço à Assembleia Geral do COB que não permitiu essa barbaridade. Eu agi dentro de minhas prerrogativas estatutárias, com absoluta retidão e clareza.

Eu  não entrei no Conselho de Ética para brincar. Enquanto eu integrar o comando e a condução das questões éticas, de compliance, governança e transparência do COB, tenham certeza que as coisas não serão feitas dessa maneira. Vou reagir com a veemência que o caso requerer em defesa da ética. Sinto-me, também, guardião dos princípios éticos do COB, porque essa é a minha atribuição estatutária.

O mundo hoje é outro, felizmente. Quem não entender que as entidades esportivas devem seguir os mais rígidos padrões de controles éticos e transparência de gestão, não tem condições de exercer cargos de direção. Ética e transparência são conceitos que se aplicam na prática e que não bastam estar estampados em slogans publicitários.

Quem teme o compliance é porque tem algo a esconder. Enquanto estiver no comando dessa área, não haverá concessões.

Parabéns à Assembleia Geral do COB. Parabéns à Comissão de Atletas. A Ética venceu o atraso.

Categorias olimpismo

2 comentários em “Retroceder Na Ética Esportiva, Jamais!

  1. Que pena que ja vi este filme!! Pensei que isso havia acabado no COB. Agora o Conselho de Etica teria que verificar esta historia de licitação no TI, despedir funcionarios de maneira obscura, pois parece que coincidentemente foram verificar esta mesma licitação e sambaram. Aguardemos.

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