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Rescaldo Olímpico

agosto 21, 2016

Os Jogos Olímpicos do Rio foram bons, com mais acertos do que erros. Equívocos estruturais foram sendo corrigidos, na medida do possível, durante as competições. Claro que não se pode comparar com os Jogos de Pequin (cujo dinheiro disponível criou uma opulência até desnecessária), ou com Londres (cuja estrutura da cidade proporciona, por si só, maiores facilidades de locomoções para os turistas, para locais além do Parque Olímpico). Mas dentro das dificuldades pelas quais o Brasil e o Rio passam (estado de calamidade pública), o hospitaleiro povo carioca soube receber o mundo com competência. Jogos Olímpicos são legais, especialmente para quem gosta de esportes. Quando a organização começa a titubear, o COI toma as rédeas e faz as intervenções necessárias para que as coisas caminhem. E assim foi feito no Rio, quando políticos e cartolas imprevidentes bateram cabeças. O COI colocou gente no Co-Rio em caráter permanente. E os Jogos sairam.

Jogos Olímpicos não são lucrativos. São uma festa magna. E cabe à cidade sede vender positivamente sua imagem ao mundo durante o período em que todas as atenções estiverem voltadas para ela. Acho que o Rio soube vender bem essa imagem. A questão é, agora, voltando à realidade, manter os esforços para a manutenção dessa imagem.

No campo esportivo, a participação brasileira foi razoável se compararmos com o vultoso dinheiro público investido. Nunca o Estado brasileiro investiu tanto dinheiro nos esportes olímpicos como nesse ciclo. Os resultados melhoraram, mas não na mesma proporção dos investimentos públicos. Em Atlanta 96 cada medalha olímpica brasileira custou R$ 4.4 Milhões de dinheiro público. Em Londres 12 cada medalha olímpica brasileira custou a bagatela de R$ 123 Milhões. Vamos ver quanto cada medalha terá custado no Rio 2016. E debater se a gestão desse dinheiro está sendo bem gerido e de forma transparente pelos cartolas.

Tenho muito receio do que pode acontecer com o esporte no Brasil a partir de amanhã. Todos os projetos de investimentos no esporte olímpico terminavam com o fim dos Jogos. Estatais e o governo já anunciaram cortes drásticos de investimentos. As Confederações já manifestam suas preocupações. Vários atletas também. E o esforço deles não poderá ter sido em vão.

Esses Jogos Olímpicos deixam, mais uma vez, evidente que o Brasil está muito longe de ter uma política esportiva de Estado para democratização e massificação do esporte. O povo mais pobre e a população em geral está muito longe de ter pleno acesso a prática do esporte, como questão de saúde pública e educação. Apenas doze por cento das escolas públicas do Brasil seguem tendo algum espaço para praticar esportes. Nesses quesitos, nesses quatro anos, apesar de muito dinheiro público investido, o Brasil não avançou um metro sequer. Se amanhã, inspirados no brilhante Isaquías Queiróz, crianças desejarem iniciar a prática da canoagem, certamente terão muita dificuldade em começar esse esporte, por falta de locais. O mesmo acontece com muitas outras modalidades. Não há acesso fácil ao esporte no Brasil.

Que o maior legado desses Jogos Olímpicos sejam a certeza de que o Brasil somente será uma potência olímpica quando realizar a política de massificação do esporte, para da quantidade tirar a qualidade. Que a prática da educação física integre a grade escolar com a mesma relevância de outras disciplinas. Que os professores de educação física sejam valorizados e bem remunerados, pois são eles que trabalham na base da pirâmide.

Que as autoridades constituídas exijam do Co-Rio 2.016 rigorosa prestação de contas do dinheiro público que lhe foi repassado. Há muita controvérsia sobre isso que tem que ser esclarecida.

Que a grande imprensa esportiva não volte a falar de Olimpismo somente daqui a quatro anos e que não debata, no futuro, somente a medalha de ouro do futebol.

Que a medalha de ouro do futebol não arrefeça as investigações na CBF. Que a medalha de ouro do vôlei não desvie a atenção das gravíssimas comprovadas denúncias feitas pelo jornalista Lúcio de Castro quanto ao pagamento de comissões indevidas na Confederação Brasileira de Vôlei. Que a Polícia Federal siga com as investigações.

Que as Confederações desportivas promovam profundas alterações em suas estruturas e, como consequência, renovem as pessoas que, há décadas, comandam o Comitê Olímpico do Brasil e fazem aquela entidade parecer ter um fim em si mesma. É necessária uma renovação profunda naquele Comitê, com gente mais jovem, dinâmica, com ideias novas e em que os atletas passem efetivamente a ter poder de mando e não funções cosméticas. De 1.996 até hoje o Comitê Olímpico do Brasil, ditatorial, tem apenas um presidente. O mais poderoso Comitê Olímpico do mundo, o norte-americano, democrático, teve sete presidentes.

Faço um cumprimento especial ao atletismo do Brasil que, em quatro anos, conseguiu por o esporte nos trilhos e obter resultados bem mais expressivos em número de simifinais e finais. Ainda há muito o que fazer. Mas após trinta anos, o futuro do atletismo pode voltar a sorrir.

Que o fim desses Jogos Olímpicos sejam o início de uma era mais alviçareira para o esporte do Brasil, de renovação.

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