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Minha Relação Com João Havelange. Reproduzo Texto De 2.012.

agosto 16, 2016

Minha Relação Com João Havelange.
março 19, 2012
Lí agora na internet que João Havelange está internado em estado grave, fruto de uma infecção generalizada. Quando eu era ainda muito garoto, Havelange ainda não tinha netos, ele vinha a São Paulo, passava em minha casa, levava-me para passear e só me devolvia à noite. Havelange, João, ou o “Princês”, como minha avó Yvonne o chamava, sempre teve conosco relação familiar muito próxima. Ele e meu avô conheceram-se nos campos do esporte do Fluminense, na década de trinta. Quando meu avó foi à sua primeira olimpíada como atleta, em 1.932, defendia o escudo do tricolor carioca. Mais ou menos na mesma época em que meu avô, militar, foi transferido para o 4 Batalhão de Caças da Infantaria, no bairro de Santana, em São Paulo, Havelange
também muda-se para a capital paulista, para trabalhar como advogado trabalhista da Viação Cometa. Ambos passaram a defender o Clube Espéria, uma das potências esportivas da época, meu avô, o Capitão Padilha, no atletismo e Havelange na natação. Em 1.936 ambos integraram a delegação nacional que foi aos Jogos Olímpicos de 1.936, na tenebrosa Alemanha nazista. Meu avô era o então recordista sulamericano dos 110 e 400 metros sobre barreiras e, em Berlin,
tornava-se o primeiro atleta do continente a atingir uma final olímpica nessa modalidade. Havelange era o campeão brasileiro dos 1.500 metros nado livre. As carreiras como dirigentes também seguiram caminhos próximos, embora cada qual tivesse métodos absolutamente opostos de administrar certas coisas. Meu avô, em 1.939, é nomeado diretor do Departamento de Esportes e Educação Física do Estado de São Paulo e, ao mesmo tempo em que ainda era atleta de destaque mundial, empenhou suas atividades em programas de massificação do esporte. Na mesma época Havelange assumia a diretoria de natação do Espéria e, em seguida, a presidência da Federação Paulista de Natação. O tempo passou. Havelange tornou-se presidente da CBD. Meu avô assume a presidência do COB, também mais ou menos na mesma época. Ambos
chegaram ao COI com apenas um ano de diferença. Meu avô é eleito vice – presidente do COI, enquanto Havelange é eleito presidente da FIFA.
Como já ressaltei, havia entre os dois divergências profundas na forma de administrar as coisas do esporte. Um olimpistas puro, amador, meu avô nunca admitiu que do esporte se tirasse qualquer proveito financeiro. Mesmo tendo ocupado os cargos mais importantes da estrutura do esporte mundial, meu avô, Major Padilha, morreu em 2.002 recebendo seus proventos de militar reformado do exército brasileiro e aposentadoria como professor aposentado de educação física do Estado de
São Paulo. Sua preocupação era com o esporte educação. Havelange, por sua vez, transformou a FIFA em um das maiores multinacionais do planeta, cujo PIB era equiparado ao de muitos países. Em 1.970 Havelange insistiu muito que meu avô fosse ao México chefiando a equipe que viria a ser tri campeã mundial. Assim como inúmeras vezes Havelange convidou meu avô a integrar o Comitê Executivo da FIFA. O Major Padilha, sempre com educação, recusou tudo isso. Por razões de foro íntimo preferia não se envolver nas coisas do futebol. Mantinha-
se ligado, exclusivamente, aos chamados “esportes amadores”, ou “olímpicos”. Não obstante as diferenças que pautavam a forma de administrar o esporte, meu avô e Havelange nunca deixaram de ser amigos. Havelange tem uma qualidade importante, que é ser leal às suas amizades, desinteressadas, mesmo com aqueles que porventura discordem dele em muita coisa. Quando meu avô, em uma reunião da Comissão de Elegibilidade COI teve um acidente vascular cerebral, Havelange imediatamente cancelou toda a sua agenda internacional e dirigiu-se ao Hospital Universitário de Lausanne, para vê-lo e emprestar sua amizade. Essa relação próxima, respeitadas as diferenças ideológicas, fez com que eu também tenha convivido de maneira próxima com Havelange e sua sempre amável mulher, Anna Maria. O casal é meu padrinho de casamento. Convidei-os para meus padrinhos pela amizade que sempre nos dispensaram. E não porque tive quaisquer outros interesses, até porque, além de realmente não tê-los, minha condição pessoal e profissional prescidem desse tipo de artifício. Nunca escondi dele, nas incontáveis vezes em que conversamos sobre esporte, o que acho, o que penso e como entendo que o esporte deva ser. Mesmo em minhas críticas mais ásperas, Havelange deixou de ser cordial comigo. Não me afasto um milímetro sequer de minhas posições claras sobre as coisas do esporte. Da mesma maneira como prezo bastante a amizade que João e Anna Maria Havelange sempre nos dispensaram.

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