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“Quem Paga A Notícia”, Artigo de Ricardo Ebling. Vale Muito Para Esses “Borra Botas” das Assessorias de Imprensa do Esporte.

fevereiro 10, 2015

Por Ricardo Ebling, especial para o 247

A mão que balança o berço

(Quem paga a notícia)

Dizem que existe uma diferença básica entre o jornalista e o publicitário: o primeiro, quando mente, sabe que está mentindo. O publicitário, por sua vez, passa a acreditar com convicção na própria mentira. Já os assessores de imprensa reproduzem as mentiras de qualquer um, desde que paguem.

A relação entre os assessores de imprensa (ou na sua versão mais perversa, os “consultores de imagem”) e os jornalistas e os veículos de comunicação – e como esta interação promíscua já matou o jornalismo – é o que trataremos a seguir. Estamos falando do “jornalismo premium”, como se autodenominam os jornais não populares, que ainda circulam, e alguns nichos nas revistas e tevês.

Do início dos anos 70 até o final da década de 80, o jornalismo brasileiro viveu uma época de fartura. Foi o ciclo mágico do pleno emprego nas redações e do financiamento absoluto da produção jornalística pelas próprias empresas do meio. Havia até excesso de produção, que muitas vezes ia parar na imprensa alternativa. Que também se aproveitava da capacidade ociosa do imenso parque gráfico adquirido pelos grandes grupos de mídia — graças às inúmeras benesses do regime militar — para rodar sua produção subversiva.

Paralelamente, os chamados assessores de imprensa eram os feios, sujos e malvados que tinham que pedir audiências, nem sempre atendidas, aos jornalistas. Os press releases eram material radioativo nas redações. Não se devia aceitar essas mentiras oficiais, mal escritas, com a indisfarçável intenção de manipular os santos, puros e eticamente irrepreensíveis agentes do interesses público.

O mundo girou, a lusitana rodou, o regime militar caiu e o capitalismo emagreceu. Ajustes começaram a ser feitos no início dos anos 90 e até hoje os passaralhos ainda sobrevoam em nuvens as redações. Mas nossa economia aberta e a democracia em vigor geraram uma nova demanda. Profissionais de comunicação encontraram um novo nicho: produzir informações para quem antes não tinha problemas em colhê-las. Já em meados dos anos 90, cerca de 60% da produção dos veículos “premium” eram produzidos fora das redações, principalmente pelas assessorias de imprensa que começaram a nascer da própria necessidade de abrigar os profissionais que caíram da grande nave mãe.

Dos jornalistas em atividade no país, hoje, depois de todos os enxugamentos dos últimos 20 anos, apenas 10% estão nas redações. Noventa por cento estão fora, produzindo matérias para quem ficou. Seriam 10 assessores de imprensa para cada jornalista. O cálculo é grosseiro, mas o número pode ser até modesto. Como os veículos estão diminuindo ou sumindo, e as empresas de assessoria não param de aumentar, está se criando um impasse: fazer intermediação entre quem se faltam personagens? Esta-se na iminência da trabalhar para o vácuo.

Alguns serviços prestados pelas assessorias estão se mostrando inúteis, como as análises de mídia. Perguntam-se os clientes: é necessário analisar diferenças entre poucos veículos que publicam a mesma matéria, sob o mesmo ponto de vista editorial? A principal tarefa dos analistas hoje é descobrir qual foi a assessoria que “plantou” a sua matéria integralmente.

Até algum tempo atrás, assessorias convenciam os veículos a publicar pautas que atendiam interesses de seus clientes, políticos ou privados. Ou seja, lançamento de produtos ou invenção de personalidades. Mas os repórteres e editores tinham que trabalhar. Hoje, isto não é mais possível. Quem não chegar com o produto apurado e já editado está de fora deste mercado. Não há força de trabalho para cumprir as sugestões das assessorias.

Mas estas não têm limitações financeiras ou de mão de obra. Contratam profissionais por altos salários para fazer todo o trabalho do jornalista “premium”. A desproporção no número de profissionais em cada lado do balcão (ainda existe isto?) também está nos salários. Jornalistas que recebem 5 mil por mês recebem informações de vários assessores que ganham entre 20 a 120 mil paus. Por mês.

Nas últimas campanhas eleitorais, as matérias contra candidatos chegaram prontas às redações. Muitos jornalistas “investigativos” apenas assinaram algumas. E distribuíram-se prêmios, outrora veneráveis, para farsas eleitorais, plantadas por candidatos e candidaturas. Acontece o mesmo na guerra concorrencial ou no lançamento de produtos, que recebem espaços jornalísticos para ganhar mercado e, depois, sair de fininho. Tradicionalmente, as assessorias participavam de 10% do bolo das verbas de comunicação (publicidade, promoção e eventos ficam com a parte do leão). Esta proporção está aumentando gradativamente.

Quando chegar a 20%, quem quiser informações já poderá ligar diretamente para as assessorias de imprensa, como representantes do grande capital e da alta e baixa política. Todas as informações estarão lá. As que serão publicadas e as que serão limadas das edições.

As assessorias miraram e migraram para o setor público. Está havendo uma grande terceirização de mão de obra _ e só isto. O agente público foi transformado num fornecedor de serviços, com diferenças de tratamento entre quem recebe diretamente do Estado e quem recebe indiretamente. Criou-se uma área cinzenta, já objeto de escândalo como o ocorrido no Ministério da Fazenda.

Nos anos 50 e 60 praticamente não existia salário para jornalista. As empresas jornalistas encaminhavam os profissionais para receberem de órgãos públicos, da administração direta, legislativo e autarquias. Terceirizavam a folha salarial. Os veículos forneciam uma carteirinha e um “vá à luta” aos novos jornalistas.

O desequilíbrio ocorrido entre as partes envolvidas no mesmo negócio pode gerar a necessidade de as assessorias começarem a pagar salários para manter jornalistas dentro das redações. Para ter com quem interagir. Para deter a onda incessante de passaralhos. Para segurar o jornalismo “Premium”.

A imagem do primeiro parágrafo é quase uma brincadeira. Mas concedam as exceções de praxe e levem a sério. Quando surge a notícia de que alguém contratou um “consultor de imagem”, e que este teve sucesso em sua missão, podem ter a certeza que a evolução da humanidade recuou algumas casinhas…

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