Home

Trinta Anos da Passeata do Anhangabaú.

abril 16, 2014

Hoje faz trinta anos da passeata do Vale do Anhangabaú. Era o auge do movimento pelas diretas já. Lembro-me que o povo iria encontrar-se na Praça da Sé, no início da noite e, de lá, marchar até o Vale do Anhangabaú, em um movimento importante pelas Diretas Já. Tinha 19 anos. De vários pontos do centro sairiam grupos de gente andando para o encontro na Praça da Sé. Cada um desses grupos seria liderado por políticos que haviam combatido a ditadura, alguns deles de volta ao Brasil há poucos anos, em razão da lei da anistia. Os jornais do dia indicavam cada ponto de saída e qual político estaria à frente da caminhada. Eu saí de um ponto perto da Avenida Liberdade, e, caminhando atrás dos Deputados Ulysses Guimarães e Pacheco Chaves, fomos até a Praça da Sé. As pessoas iam chegando, com bandeiras do Brasil, vestidas de amarelo. No centro da praça havia um grande painel indicando os nomes dos congressistas a favor e contra a Emenda das Diretas. Era um culto ecumênico da política. As cores partidárias de oposição à ditadura misturavam-se. Havia uma esperança enorme de que a Emenda seria aprovada e de que o Brasil votaria para presidente. Antes de sairmos em passeata até o Anhangabaú, políticos e personalidades das artes, da cultura, dos esportes e do jornalismo fizeram discursos inflamados.

A caminhada até o Vale do Anhangabaú foi inesquecível. Eram faixas, bandeiras, palavras de ordem. Lembro-me que gritávamos “Um, dois, três, Maluf no xadrez. E para ficar completo Figueiredo e Delfin Neto”. Por falta de opção a rede Globo não teve como omitir o movimento popular e entrou ao vivo no Jornal Nacional. Quando chegamos ao Vale do Anhangabaú ví uma das cenas mais impressionantes que ficam marcadas na memória. Um mar de pessoas, mais de um milhão de pessoas, uma grande onda amarela, brandindo pela democracia, exigindo diretas já. Uma cena histórica para um país que havia vinte anos vivendo sob o tacão do regime autoritário. Uma manifestação popular espontânea, o grito que se dava contra tudo aquilo que durante anos nos haviam enfiado goela abaixo. Era a volta dos exilados, o fim da tortura, novos ares que sopravam, poder livremente expressar o pensamento.

A emenda das diretas já não passou no Congresso por poucos votos. Mas tenho certeza de que aquela passeata foi essencial para o fim da ditadura no Brasil. Houve no Brasil tantas outras manifestações importantes pelas diretas já. Mas nenhuma teve a repercussão e volume de gente que a passeata da Sé ao Anhangabaú. No Anhangabaú, o sentimento era como se só quiséssemos sair de lá quando a democracia plena estivesse totalmente restabelecida. Ninguém queria arredar o pé.

Sou contente e orgulhoso de mim mesmo por ter participado daquele momento especial da democracia brasileira.

Que o Brasil nunca mais volte a ter ditaduras.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: