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Entrevista de Joaquim Cruz Para Adriana Brum, Na Gazeta do Povo, De Curitiba.

maio 6, 2013

Campeão olímpico vê cenário sombrio para atletismo do país

Joaquim Cruz, atual técnico paralímpico dos EUA, acredita que dificilmente o Brasil terá um medalhista na modalidade nos Jogos do Rio, em 2016

29/04/2013 – 13:16 – Curitiba

Adriana Brum, Gazeta do Povo

28 anos, oito meses e dois dias, o recorde das Américas dos 800 metros no atletismo pertence ao brasileiro Joaquim Cruz. Em 26 de agosto de 1984, ele terminou a prova em 1min41s77. Apenas outros quatro atletas no mundo conseguiram um tempo menor.

Vinte dias antes do recorde, outro êxito histórico: a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Los Angeles. Até hoje, é o único brasileiro a conquistar o topo do pódio em uma prova de pista no atletismo.

Aos 50 anos, segue acumulando êxitos, agora pelos Estados Unidos, onde mora desde 1983. É treinador de atletas olímpicos e da seleção paralímpica do país, com a qual foi eleito, em 2011, o melhor técnico do país em modalidades para atletas com alguma limitação física.

Envolvido na preparação da equipe americana para os Jogos do Rio, em 2016, prevê que mais uma vez o Brasil dificilmente terá um medalhista no atletismo. E mais: lamenta que o país esteja desperdiçando a chance de criar o legado ao permitir a destruição de instalações esportivas “para a construção de estacionamentos para a Copa 2014”.

Ele investe na formação de atletas no país com seu projeto, no instituto que leva seu nome, em Brasília, que selecionou jovens da periferia para receber treinamento visando aos Jogos de 2020 e 2024.

“Não podemos pensar em apenas formar atletas que querem chegar à Olimpíada. Eles têm de saber que vão para disputar o pódio”, diz.

Quando se olha para os recordes nacionais, a maioria não é baixada há muitos anos. Isso é um reflexo de uma estagnação do atletismo no país? O que esperar da seleção brasileira de atletismo em 2016?
As estatísticas não mentem. Pegue os atletas da seleção de hoje e coloque no ranking mundial. Os que não estão entre os 50 melhores hoje, não estarão entre os possíveis vencedores [em 2012, 25 brasileiros estiveram entre as 50 melhores marcas em 47 provas]. Os que terão chance têm de estar entre os vinte melhores em 2015. Quando eu venci em 1984, era o terceiro do ranking em 1983. Com a Maurren [Maggi, campeã olímpica em Pequim no salto em distância] foi a mesma coisa.

Qual é o seu diagnóstico?
Isso é um problema antigo. Hoje, infelizmente, as minas que geravam bons atletas secaram. Não temos programas para identificá-los. O atletismo não está mais nas escolas. Na minha época, estudava pela manhã e voltava para a escola à tarde para a Educação Física. Isso não acontece mais. Hoje, dependemos muito de clubes, um ambiente da classe média-alta para formar os atletas olímpicos. O atletismo é um esporte de classe média-baixa, da periferia.

Como você vê a derrubada do estádio Célio de Barros para a construção de estacionamentos do Maracanã e a interdição do Engenhão, no Rio de Janeiro?
Fala-se de legados para a comunidade carioca. Nesses últimos meses, tivemos a indicação de que estão fazendo a coisa de maneira errada ao tirar um legado para acomodar outro. No caso do Célio de Barros, tirou-se um local de treinamento dos atletas sem um plano de ação. Estão destruindo um legado para o esporte. E não vamos cair na armadilha de que o Engenhão vai ser o estádio do atletismo. Pode ser durante a Olimpíada, mas vai ser no dia a dia, para a comunidade? O atletismo pode dividir o espaço com o futebol. Mas o futebol vai dividir o espaço com o atletismo?

Você criou em Taguatinga (DF), um programa de treinamento esportivo para formar campeões olímpicos. Como se forma um campeão?
Estamos pensando nos Jogos de 2020 e 2024, treinando garotos no atletismo, porque essas coisas são feitas a longo prazo. Alcançar um pódio não é tão complicado. Estive em três Olimpíadas e subi ao pódio em duas. Conheço o que tem de ser feito. O garoto já tem de entrar no projeto com o objetivo bem definido, de que pode vencer. Não pode ir para Olimpíada para dizer que foi, tem de ir para vencer.

Qual é o processo de escolha de jovens com esse perfil?
Fizemos no ano passado uma chamada pública e testamos os que comparecem, analisamos o potencial físico e a vontade de ficar no programa. Passam por testes de laboratório, físicos e psicológicos, com ajuda da universidade católica local e da USP, em São Paulo. Os aprovados treinam de segunda a sábado com nossos treinadores, que são incentivados a seguir estudando sobre o esporte. Somos um país privilegiado para o atletismo, com muitas crianças ainda brincando muito na rua, correndo, pulando.

Você tem lembranças recorrentes da sua prova que lhe deu o ouro olímpico em 1984?
Na verdade, tenho mais lembranças das minhas origens, de quando tinha de dividir cama com a irmã, não tinha tevê em casa, caminhava e corria no cerrado para pegar frutas. Lembro mais da minha primeira experiência com atletismo, em que tive de correr 12 minutos. Tenho mais orgulho disso do que da medalha em si. Porque foram esses momentos que me moldaram como pessoa. O pódio foi resultado do que fiz durante esse processo.

 

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6 Responses to “Entrevista de Joaquim Cruz Para Adriana Brum, Na Gazeta do Povo, De Curitiba.”

  1. Celso Says:

    É incrível quando a gente lê algo vindo de alguém que sabe o que está falando. Alguém teria a coragem de contestar as palavras do grande Joaquim Cruz???

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  2. anonimo Says:

    sou um grande fã do Joaquim, mas o seu programa em bsb tem muitos atletas participando por “padrinhagem”, entao ele devia estar um pouco mais atento a isso já que tem um nome a zelar.

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  3. Luiz Alberto de Oliveira Says:

    Muito tempo atras, um de meus atletas, Agberto Guimaraes, me disse uma coisa que eu guardei dentro de mim. Ele disse “Se queres conhecer o seu pais, costumes, dificuldades e muito mais. Volte a morar aqui e faca o seu trabalho. Fazer campeoes, nao so depende de dinheiro e muito apoio, depende muito de quem trabalha com os jovens e os preparam para a dificil realidade de fazer campeoes! Nao podemos perder as esperancas nunca. Vamos continuar lutando!
    Prof. Luiz de Oliveira

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  4. profjeanmagno Says:

    Reblogged this on Blog do Prof. Jean Magnoe comentado:
    Um retrato triste do abandono do nosso esporte…

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  5. adriana brum Says:

    Murray, fiquei muito contente em ver esta matéria publicada no seu blog. A conversa com o Joaquim foi por telefone, mas foi uma das melhores que já tive a oportunidade de fazer como jornalista esportiva. só comprova uma teoria que tenho:quanto mais evoluída uma pessoa é, mais simples e acessível se torna. é o caso do cruz.

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