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Veja Publicou Em 1.999, Em Matéria de Dorrit Harazim, Algumas das Folias Olímpicas.

agosto 16, 2011

Folias olímpicas
Entre os mimos oferecidos a membros do COI,
dólares, prostitutas e terrenos em troca de votos

Dorrit Harazim

“Olimpíadas são um afrodisíaco. Se você quer mesmo trazê-las para sua cidade, vai acabar esticando as regras”
Fred Ball, ex-integrante do comitê de Salt Lake City
Suspeitas de suborno sempre houve. Intrigas cravejadas de inveja, também. Ainda assim, em seus 104 anos de história, o Comitê Olímpico Internacional, COI, sempre abafou maledicências com rodadas de canapês. Desta vez, os rumores viraram denúncia, os canapês passaram a cheirar mal, e o caso todo está migrando dos salões para investigações policiais. Tudo começou em dezembro, quando um preeminente fidalgo da família olímpica mundial, o octogenário Marc Hodler — o membro mais antigo da entidade e ainda por cima suíço —, veio a público denunciar falcatruas no processo de indicação da cidade americana de Salt Lake City para sede das Olimpíadas de Inverno do ano 2002. “Não me agrada pertencer a um clube de má reputação”, disse Hodler, referindo-se ao venerando COI. Hodler chamou as coisas pelo nome (“compra de votos”) e, desde então, as denúncias se empilham mais alto do que a neve no Estado de Utah.

Os desdobramentos do escândalo, também. Quatro cabeças rolaram nos dez últimos dias: a do presidente do comitê organizador da candidatura de Salt Lake City na época em que a cidade foi escolhida, a do seu vice, a de seu sucessor, e a do diretor de relações internacionais do Comitê Olímpico dos Estados Unidos. Tem mais. Para o canadense René Paquet, que chefiou a fracassada candidatura de Quebec para o mesmo ano de 2002, o próprio todo-poderoso presidente do COI, Juan Antonio Samaranch, deveria avaliar sua responsabilidade no escândalo e cogitar a renúncia. “Vou ficar no cargo até o último dia de meu mandato”, tratou de esclarecer na sexta-feira, em Lausanne, o espanhol Samaranch, que está em seu quarto mandato e aprecia ser chamado de “sua excelência”. Se conseguir ficar, seu último dia de trabalho será em julho de 2001, quando completa 81 anos.

Pesadelo maior de financistas e patrocinadores olímpicos que já investiram mais de 1,1 bilhão de dólares na empreitada, a própria realização dos Jogos em Salt Lake City começa a ser questionada. Quatro comissões de inquérito diferentes, instauradas de emergência, investigam as denúncias: uma do COI, outra do Comitê Olímpico dos Estados Unidos, a terceira de Salt Lake City e a quarta, a mais temida, do Departamento de Justiça americano, acoplado ao FBI e a investigadores da Receita Federal. Conspiração, suborno, fraude fiscal e extorsão são alguns dos crimes em pauta. Pelas contas do octogenário Hodler, autor da denúncia inicial, entre 5% e 7% dos 115 membros do Comitê Olímpico Internacional são “vulneráveis” a suborno. Além de Salt Lake City, a capital mundial da seita mórmon, as candidaturas vitoriosas de Atlanta (1996), Nagano, no Japão (1998), e Sydney, na Austrália (2000), também teriam sido marcadas por maracutaias do gênero. Por via das dúvidas, na semana passada autoridades de Nagano já avisaram que todos os documentos referentes aos custos da pré-candidatura da cidade, de 18 milhões de dólares, se perderam ou foram destruídos.

“Fiquei três noites sem dormir, com tempo para rezar para que os bravos, os bons, os fortes e os sábios tivessem coragem de defender a honestidade do movimento olímpico”, conta Hodler. Do chanceler de seu próprio país, porém, recebeu o conselho de desistir da denúncia para não prejudicar as chances da cidade suíça de Sion como candidata aos Jogos de Inverno de 2006. O nó da questão está aí: mesmo quando há fortes indícios de que tenham sido roubadas, as cidades perdedoras não denunciam os membros do COI de ter vendido seu voto por temerem represálias, caso queiram recandidatar-se. E as que vencem a disputa não reclamam porque ganharam.

Quanto ao seleto clube dos 115 delegados olímpicos, também conhecidos como “duques de caspa” por quem os vê como nababos, a vida não anda mais tão glamourosa. Até 1986, quando entrou em vigor a teórica proibição de receber presentes de mais de 150 dólares das cidades-candidatas, a vida era uma caixinha de surpresas doces para os que quisessem degustá-las. Araras com fileiras de casacos de pele eram trazidas para os hotéis cinco estrelas em que se hospedavam com suas mulheres. Jogos de porcelana rara e cara, quadros de valor, jóias, passe livre em vôos de primeira classe, valia tudo pelo bem da causa olímpica e compensava generosamente a não-remuneração do cargo. Pelo menos uma vez, um mimo teve quatro patas e um focinho. Foi em Atlanta, onde bastou o delegado cubano admirar o buldogue “Uga”, do diretor de relações internacionais da candidatura daquela cidade, para que o animal lhe fosse entregue no aeroporto. Apesar do embargo americano ao regime de Fidel Castro.

No caso específico da candidatura dos Jogos de 2002, as principais denúncias, até agora, são as seguintes:

Uma quadrilha de intermediários (entre os quais um membro africano do COI), com escritórios em Nova York, Chicago e na Europa, ofereceu blocos inteiros de votos por até 3 milhões de dólares.

Um desses agentes, identificado como o ex-técnico da seleção de vôlei do Egito, teria recebido 58.000 dólares assegurando o “voto árabe”.

Um fundo de 632.000 dólares instituído pelo comitê de Salt Lake City serviu, também, para beneficiar familiares de delegados africanos com bolsas de estudo nos Estados Unidos.

Três delegados receberam tratamento de saúde (inclusive uma operação plástica) gratuito, no valor de 28.000 dólares.

O Comitê de Salt Lake City desembolsou 20.000 dólares em armas e esquis para membros do COI. Duas Browning (um rifle e uma pistola 9 milímetros) foram parar no gabinete de Samaranch e expostas às pressas na sexta-feira, para encaminhamento à coleção do Museu Olímpico Internacional.

Cartões de crédito do comitê organizador foram usados para pagar prostitutas a delegados do COI.

O congolês Jean-Claude Ganga, presidente da Associação de Comitês Olímpicos Africanos, teria recebido 50.000 dólares em espécie para “ajudar crianças vítimas da guerra civil em seu país”. Também ganhou tratamento médico gratuito para a mãe e teve lucro de 60.000 dólares numa transação imobiliária agenciada pelo comitê de Salt Lake City. Entrevistado, estranhou que só delegados africanos estejam sendo denunciados.

Não é bem assim. O chileno Sergio Santander Fantini, candidato a prefeito em seu país, teria embolsado 10.000 dólares, o ex-marido da delegada da Finlândia, Pirjo Häggman, foi empregado pelo comitê organizador de Toronto (candidata aos Jogos de 1996), e o holandês Anton Geesink recebeu 5.000 dólares “para a Fundação Amigos de Anton Geesink, que promove ideais olímpicos no mundo”. Ao todo, treze membros do COI deverão se apresentar em Lausanne — e pelo menos nove com a carta de demissão na mão, se as acusações forem verdadeiras.

Desde já, o comitê organizador de Salt Lake City achou prudente contratar a firma de advocacia Latham & Watkins, que tem 850 advogados em catorze cidades, prevendo uma avalanche de processos. Fez bem. Quebec, que foi concorrente direta da cidade americana para os Jogos de 2002, já avisou que vai exigir 12,5 milhões de dólares de indenização caso as acusações sejam comprovadas. Aconselha outras concorrentes a fazer o mesmo. “Depois do que aconteceu, qualquer cidade que queira sediar uma Olimpíada nos próximos trinta anos vai apresentar-se tão imaculada que restringirá o patrocínio a marcas de sabão em pó”, diz a americana Sue Loder, coordenadora da candidatura de San Francisco, na Califórnia, aos Jogos de 2012. Seu colega de Salt Lake City, Fred Ball, é mais realista: “Olimpíadas são um afrodisíaco. Se você quer, de fato, trazê-las para sua cidade, vai acabar esticando um pouco as regras”.

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