Texto De Alexandre Sidnei Guimarães, Jornalista e Consultor Legislativo Do Senado Federal Publicado No Jornal Correio Braziliense

“Olimpíadas 2016: fim do “plantation” no esporte brasileiro?

ALEXANDRE SIDNEI GUIMARÃES
Jornalista e Consultor Legislativo do Senado Federal

Se fosse necessário falar sobre o sistema de plantation em poucas linhas, poder-se-ia descrevê-lo por algumas de suas características: monocultura, feita em latifúndios, voltada à exportação do produto de boa qualidade e exercida por mão de obra barata (ou escrava), preponderantemente em colônias ou países periféricos.

Esse é o sistema que impera no esporte de várias nações, inclusive no Brasil. Há um sistema de plantation esportivo. Utilizando o exemplo brasileiro: uma monocultura futebolística, feita por federações e clubes latifundiários (e seus cartolas), que visam ao lucro fácil pela exportação para o mercado europeu dos melhores jogadores, e praticado por uma imensa maioria de atletas que vivem de salário mínimo, quando conseguem algum direito trabalhista (e, em nosso país, estimativas giram em mais de 90% do total).

Alguns países, como o Brasil, avançam a mais submonoculturas. Veja-se, por exemplo, os jogadores de vôlei nas ligas europeias, os de basquete na NBA ou na WNBA, ou os nadadores e atletas que treinam nas universidades estadunidenses.

Mas se observa à frente uma oportunidade de libertação do sempre fracassado plantation: os grandes eventos esportivos que se avizinham, culminando com os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos do Rio, em 2016. Seria uma chance, se não fossem dois relevantes pontos a considerar: o primeiro, a realização das copas das Confederações, de 2013, do Mundo, de 2014, e da América (ou das Américas, como pretendem), de 2015; o outro, a cultura do jeitinho brasileiro e da primazia dos interesses particulares (de alguns particulares!).

Quanto aos megaeventos suprarreferidos: por um lado, são uma vitória e o reconhecimento do melhor futebol do mundo; por outro, serão a consolidação do nosso plantation. Afinal, durante os próximos anos, todos os olhos estarão fixos na preparação (mesmo que extremamente atrasada) das passarelas por onde a paixão nacional vai desfilar e esquecidos que algo muito maior os seguirá.

Não se trata somente da construção dos ginásios e de outros equipamentos necessários para os Jogos do Rio. É muito mais, é o cumprimento das promessas: segurança pública na capital fluminense, investimentos em mobilidade urbana (afinal, são quatro zonas olímpicas espalhadas por uma cidade bela, mas de trânsito caótico), solução da infraestrutura de transportes (estradas e ferrovias que permitam o acesso fácil dos brasileiros às Olimpíadas, portos e aeroportos preparados para receber bem os muitos turistas esperados antes, durante e após o evento), consolidação da cidade do Rio como um dos centros turísticos mundiais e porta de entrada para o resto do país (mais e melhores hotéis, mais bem preparada mão de obra nos diversos setores relacionados ao turismo).

O segundo obstáculo (culturalmente intransponível?) diz respeito a dois cânceres nacionais. A cultura do jeitinho, por parecer tão inofensiva, por vezes é exaltada, mas é daqueles males que corroem sem quase se sentir, salvo quando não há mais como se tratar. Aí vem a questão: o que há na genética nacional que vem de encontro à organização, ao planejamento ou ao cumprimento daquilo que se propõe? Observem os estádios para a Copa do Mundo: quais cidades conseguirão cumprir o prazo? Nem as reiteradas “chamadas” da Fifa mudam os rumos da tragédia da qual já se conhece o final: obras malfeitas, superfaturadas e concluídas de véspera.

Porém, o mal maior não se esconde: os interesses privados de alguns poucos, prontos a tirar alguma vantagem do que deveria beneficiar a coletividade. Não se precisa estender muito sobre esse aspecto. Há cartolas a mancheias. Há os maus políticos, um desvio à regra. E, agora, há o escarcéu sobre os direitos de transmissão daquele que deveria ser o melhor dos campeonatos de futebol do mundo: redes de TV monopolistas X representação dos grandes cartolas X os próprios grandes cartolas em interesses próprios. Pouco importam os torcedores.

Findo sem muitas delongas, numa conclusão nada otimista: o esporte brasileiro ainda vai demorar a evoluir a um novo sistema fundado em bases mais igualitárias entre as diversas modalidades e pensado de forma planejada, visando ao benefício de atletas e da sociedade.”

(Correio Braziliense, 4/4/2011, Opinião, p.11)

Categorias olimpismo

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