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Mais Do Doping No Brasil.

novembro 22, 2010

Em uma competição de atletismo realizada no Brasil, em 2.004, a ONG da qual sou um dos diretores, flagrou no exame anti doping um kit de coleta de urina contendo seis frascos com numeração idêntica. Fotografamos o material. O tal kit havia sido, conforme apurado depois pela Jornalista Mariana Lajolo, do jornal Folha de São Paulo, remetido pelo Comitê Olímpico Brasileiro para a Confederação Brasileira de Atletismo. Feita a denúncia pública, as autoridades esportivas deram de ombros. Optaram por minimizar o fato e tirá-lo da mídia na maior brevidade que lhes convinha. Apenas este chato aqui e mais alguns bons de briga (são sempre os mesmos) continuaram tocando no assunto e cobrando explicações sérias

O ocorrido foi gravíssimo. As regras internacionais de controle de dopagem são extremamente rígidas. Cada kit deve conter apenas e tão somente três frascos com numeração idênticas. O primeiro é a prova, o segundo a contra prova e o terceiro serve como reserva. A numeração contida naqueles recipientes corresponde ao atleta que faz o exame. O nome do atleta, porém, nunca é revelado enquanto não houver a conclusão de todas as etapas da checagem. Quem manipula o material coletado não sabe qual o atleta está sendo submetido ao controle. Em linhas gerais,  essa é a lei internacional.

Pois bem. Ao achar seis (e não apenas tres) frascos de um mesmo kit com numeração idênticas, pode facilmente ocorrer que o atleta X urine em três deles. E qualquer outra pessoa o faça nos outros três.  Assim, teremos seis recipientes, com numerações iguais. É possível, nessas circunstâncias, que o atleta submetido ao exame, sabendo ter ingerido substâncias proibidas, simplesmente descarta (joga no lixo) os frascos com sua urina e entrega para serem examinados os outros três, que contém urina de outrém. Pode ocorrer, também, que o atleta dopado tenha seus frascos propositadamente trocados com o de outro atleta sabidamente “limpo”. Para proteger um atleta, outro, sem saber, pode “pagar o pato”. É por isso que, não raro, detecta-se doping típicos de velocistas em corredores de fundo. Ou vice-versa. Atletas de menor expressão acabam sendo punidos imerecidamente, em razão da troca de frascos.

Por mais que os regulamentos internacionais da WADA (Agência Mundial Anti Doping) prevejam que que o atleta examinado estará amplamente protegido de qualquer ação deliberadamente maléfica, o fato é que, em algum momento do processo de coleta, o material é manipulado por humanos. E humanos, infelizmente, estão sujeitos à corrupção. E daí os criminosos do doping saem ganhando.

Encontrar seis frascos com numeração igual em um único kit de coleta é uma falha gravíssima, que pode dar ensejo a apurações rigorosíssimas e punições severas. No Brasil, isso foi tratado como um fato sem relevância. Basta ler a excelente matéria publicada pela Mariana Lajolo na ocasião. Não apurar esse fato com rigor é omissão dos dirigentes.

Mas a omissão da cartolagem não reside somente aí. Não basta agir para flagar atletas dopados. Há de se atuar fortemente na prevenção do doping. Como fazer isso? Pedir o auxílio das polícias para coibir o tráfico nacional e internacional de substâncias dopantes. O doping desova no Brasil de forma fácil. E sua distribuição também não encontra empecilhos. Se os dirigentes do esporte aliasem-se às polícias, contando o que sabem, mesmo que indícios, poder-se-ía prender aqueles que traficam o doping. O esporte e o Estado têm que se unir em medidas preventivas contra o comércio do doping. Hoje, em vista dos valores astronômicos que envolvem o esporte, a vitória passou a singinicar muito mais do que uma medalha. Significa muito dinheiro. Quando os cartolas entenderem que não basta apenas pilhar quem toma substância proibida para competir, mas que também é muito importante impedir que essa mercadoria esteja tão facilmente disponível, o Brasil dará um salto enorme no combate a esse tipo de tráfico. A omissão da cartolagem reside, também, na falta de colaboração e na ausência de vontade política de agir preventivamente. Fosse eu alguma autoridade esportiva, agiria em cooperação com as polícias e com o Ministério Público, para reprimir o tráfico na sua origem. Mas ao contrário de mim, a maioria das pessoas não quer “sarna para se coçar”. Prefere a tranquilidade dos gabinetes.

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