Natação – Quem É José Finkel? Por Pedro Junqueira

ARQUIVO HISTÓRICO

AFINAL DE CONTAS, QUEM É ESSE TAL DE JOSÉ FINKEL
Pedro Junqueira
Publicado em 05/09/2008

Uma mania que eu tenho é checar estátuta de praça. Pode ser no interior de Minas, no centro do Rio ou numa citadela amuralhada da Toscana. Lá vou eu investigar que busto é aquele, quem foi o tal médico, general ou filantropo. Nas respectivas placas quase sempre se encontram os mais exagerados elogios e epítetos de verdadeiros heróis da civilização. Mas pra mim estas estátuas servem como referência, um pedaço de história mal contado que, mesmo assim, me orienta onde estou no tempo.
Minha mania das estátuas se estende em relação aos nomes dos estádios de futebol e de outros esportes. Não me basta saber apenas Maracanã, Morumbi, Pacaembu, Mineirão etc. Quando piso lá, já fiz meu dever de casa e estou íntimo do irmão do Nelson Rodrigues, o Mario Filho, do tricolor Cícero Pompeu de Toledo, do radialista e cartola Paulo Machado de Carvalho, do banqueiro calvo e golpista de 64 Magalhães Pinto, e por aí vai … No mundo da natação, já sabemos bem quem foi Maria Lenk (um dia começo a série sobre ela e nossas outras nadadoras, sei que estou devendo), não tão bem quem foi Julio Delamare e muitíssimo bem quem é Cesar Cielo, todos eles com direito a estádios ou piscina homônimos, o último deles no Esporte Clube Barbarense.
Seguindo o mesmo raciocínio, considero uma obrigação moral estar a par de quem são aqueles notórios personagens que se tornam nomes de torneios. Quando chegar a hora, me cobre, caro leitor, uma informada biografia do Maurício Beckenn ou do Carlos Campos Sobrinho. Imagino que seria desnecessário eu contar a história de um tal Alexandre Azambuja Pussieldi, outro grande personagem da natação brasileira com direito a torneio homônimo.
Sem mais delongas, o motivo das minhas mal traçadas de hoje é lembrar a todos quem é este nome misterioso que faz com que o melhor da natação brasileira se encontre anualmente, em meses invernais, como está acontecendo neste momento nas imediações do Parque São Jorge, em São Paulo. Quem foi José Finkel? Como nasceu e cresceu este campeonato que tem a sua marca no calendário nacional? Talvez esta seja uma história de homenagem mais comovente e humana do que todas as outras dos dignatários que emprestaram seus nomes aos torneios brasileiros.
Em outubro de 1970, a pequena equipe de natação do Centro Israelita, de Curitiba, viajou para uma competição no Grêmio Náutico União, em Porto Alegre. O estado do Paraná era, então, fraco neste esporte. Jamais tinha produzido um nadador de destaque nacional. O melhor peitista do Centro Israelita era um garoto de 17 anos, José Finkel. Naquele tempo, em todas as piscinas do sul do Brasil, ninguém entrava n’água pra treinar entre os meses de abril e setembro. O frio não permitia. O treinamento no inverno era mínimo e quase todo a seco, fora d’água. Finkel era um bom jogador de basquete, seu esporte alternativo pra evitar a temporada de piscina gélida. Lá no GNU, em começo do período anual de competições natatórias, Finkel começou a se sentir mal.
De volta a Curitiba, ele encarou os exames médicos e a notícia foi de arrasar. Seu quadro clínico apontava câncer nos vasos linfáticos. Muito se andou na medicina e nos costumes desde então. Naquela época, só restava uma quimo braba. Finkel começou o tratamento e desapareceu do mapa, provavelmente poupado, pela família, dos tabus relacionados a esta doença, vigentes então. Algumas semanas depois, este garoto já tinha partido desta vida.
A pequena natação do Centro Israelita não sobreviveu à tragédia. Ninguém mais apareceu pra treinar. Mas daquela perda iria renascer uma natação paranaense muito mais vigorosa e que, na segunda metade da década seguinte, se transformaria em força nacional. O elo entre uma coisa e outra pode parecer tênue, devido à passagem de um longo tempo entre elas, mas os fatos que se sucederam comprovam a ligação causal.
A força motriz da natação paranaense era Berek Krieger, o presidente da federação estadual. Berek era amigo de Ruben Dinard de Araújo, o cartola chefe da natação nacional nos anos 70. O paranense foi um tanto visionário. Querendo homenagear o garoto Finkel, construir um clube decente para a natação curitibana e elevá-la a um nível competitivo nacional, e preencher um buraco no calendário nacional que deixava nossos nadadores coçando a barriga por vários meses por ano, ele pôs-se a trabalhar.
Com o apoio do Dinard, Berek convenceu alguns patrocinadores a bancar a logística, incluindo a alimentação dos nadadores, de uma nova competição de natação de âmbito nacional, sediada no Centro Israelita. Os melhores clubes do Rio e São Paulo toparam o convite. Berek engendrou um sistema de aquecimento para a piscina do clube, amenidade inexistente nos principais clubes nacionais de então. No inverno de 1971, nascia a competição Troféu Finkel, com o troféu de premiação ao clube vencedor exibindo a mesma figura de escultura que o troféu tem hoje. A piscina do Centro era de 25 metros. Com o tempo, a competição vingou e o Finkel foi ganhando a conotação de Brasileiro de Inverno em piscina de 25 metros.
Berek não parou aí. Arrumou uns sócios, comprou um lote ou terreno baldio, e construiu uma piscina e clube novos, de infra-estrutura mais moderna, para poder comportar um torneio nacional e uma equipe paranaense a altura do estado. Nascia o Clube do Golfinho, nova sede do Troféu Finkel, e sua equipe, toda importada do Centro Israelita.
No final do inverno de 1974, depois da realização do torneio daquele ano, Berek levou uma apunhalada psicológica da qual nunca mais se recuperou inteiramente. A ditadura Geisel o colocou no xadrez. A acusação: contrabando de armas para guerrilheiros. Como se vê, pra quem sabe do passado de Romulo Noronha, nosso chefe de delegação em Pequim, a dirigência da natação brasileira teve um passado sofrido nas mãos da ditadura. Oito meses depois da prisão de Berek, mas antes da edição do Finkel do ano seguinte, um tribunal militar o inocentou das acusações e ele foi solto. Mas o choque dos meses atrás das barras acabou por diminuir seu envolvimento com a natação.
No começo de 1977, na piscina do Minas TC, com casa lotada, durante o Trófeu Brasil daquele ano, diante dos meus olhos, uma menina bateu o recorde sul-americano da prova dos 200m costas, nadando na casa dos 2m25s, sendo este o único recorde continental quebrado durante aquela competição, na piscina funda antiga do velho Minas. Seu nome: Ilana Krieger, filha de Berek. Nascia o primeiro resultado de destaque nacional de um nadador paranaense. Do Clube do Golfinho.
Ilana nadava costas e borboleta e representou o Brasil nas provas destes estilos no Sul-Americano de 1978, em Maldonado, Uruguay. Ela foi contemporânea das campeãs mineiras, mais conhecidas minhas, Paula Bittencourt (mãe do Lucas Azevedo), Ângela Maestrini e da bela Bernadette Frossard Nogueira, todas exemplos e referências pra minha geração no Minas. Ilana foi a pioneira de uma geração de paranaenses que despontaria nos anos seguintes e disputaria a elite da natação nacional. A partir do meio dos anos 80 e até o começo dos anos 90, o Clube do Golfinho, juntamente com o Curitibano, liderados por atletas como Michelena e Romero, os melhores nadadores do país entre a aposentadoria do Prado e o despontamento do Gustavo Borges, e outros como Renato Ramalho, Newton Kaminski e Cristiane Santos, e treinados, no caso do Golfinho, por um técnico do calibre do Reinaldo Dias, iriam preencher com seus azes as finais e os pódios dos campeonatos brasileiros como nunca tinha acontecido antes e como nunca aconteceu depois.
O Troféu José Finkel prestou papel fundamental no Brasil de ontem, suprindo uma bela razão motivacional para nossos nadadores treinarem, viajarem e competirem, em nosso precário ambiente competitivo daquela época. No Minas TC, ainda moleque infantil, eu ficava curioso de saber o que se passava durante aquelas viagens a Curitiba dos nadadores mais velhos. As “mães do Minas”, instituição legendária dos anos 70, repassavam as estórias que rolavam durante os dias no Paraná. O torneio foi ganhando importância e acabou escapando das mãos do estado. Seu formato, em piscina de 25 metros, também deixou de ser regra constante. Nos anos 90, a misteriosa piscina de 25m do Clube Internacional de Regatas, em Santos, sediou suas versões e lá estabelecemos recordes mundiais que não eram levados totalmente a sério pela elite mundial.
O Clube do Golfinho, ao longo do tempo, sofreu uma debandada. Romero e Reinaldo foram para o Minas. Michelena para o Rio. Hoje, mais de quinze anos depois, o Curitibano impera na cidade e seu adversário virou um pedaço de brejo, me dizem. Mas o Finkel está ai ainda. Prestigiado, não sei por quanto tempo… Empurraram o torneio pro fim de inverno, data desvantajosa no ciclo de treinamentos, dentro de um calendário de competições nacionais triplas, que inclui também seus dois irmãos relativamente mais importantes, o Open e o Maria Lenk.
Mas o espírito, ou melhor, o sangue de Berek continua nas veias da natação brasileira, através das grandes performances de seu filho curitibano Joel Krieger. É só checar no site da ABMN. Nas categorias 50-55 e 55-59 anos, na maioria das provas do livre, Joel detém os recordes sul-americanos. Um bom desafio para o meu amigo Mattioli, um pouco mais novo, quando chegar lá. Estas estrelas da natação master me fazem sempre lembrar que, ao contrários dos nossos anos adolescentes quando sentíamos os treinos quase como obrigação, a natação da meia idade vai muito mais além e reflete a adoração do esporte por seus verdadeiros aficionados.
Joel era amigo e companheiro de treinos do Finkel, há quarenta anos. A ele e a Ilana, agradeço as informações valiosas passadas. À senhora Búzia Finkel e seus filhos Alberto e Bea, se algum dia lerem este texto, presto através dele minha homenagem ao José. Perder este garoto aos 17 anos é uma tristeza eterna. Eu bem sei o que é isto.
Pedro Junqueira – ex-nadador do Minas Tênis Clube dos anos 70, aposentado precocemente das piscinas, pesquisador e aficionado da natação e história, está escrevendo um livro sobre a história da natação competitiva do Brasil e assina a coluna Arquivo Histórico do Bestswimming.

Categorias olimpismo

6 comentários em “Natação – Quem É José Finkel? Por Pedro Junqueira

  1. obrigado pelo ótimo artigo!!!

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  2. Excelente matéria. Eu que nadei e fui fundador do Clube do Golfinho, além de participar e conviver com o Berek, senti-me emocionado.
    Enio de Aragón

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  3. Gostaria de entrar em contato com o Pedro Junqueira… Alguém pode me passar um email dele? ou enviem o meu para ele: anechini@gmail.com

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  4. Gostaria do contato do Pedro Junqueira … alguém pode passar meu email para ele veraarruda@gmail.com ? Sou pesquisadora , estou trabalhando sobre o AOimpiada de 48 . Obrigada

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  5. Paulo Zenobio Silva Miorim novembro 26, 2013 — 5:59 pm

    Eu nadei e fui técnico de natação junto, com o prof. Eraldo Graeml, do Círculo Militar do Paraná. Me chamo Paulo Zenóbio Silva Miorim e, quando vim de Santos para Curitiba fazer o Curso de Engenharia Civil na UFPR, participei ativamente da natação paranaense de 1968 até 1972, quando me formei. Convivi com o Herson Capri, Paulo Maculan, Richardi Pasquale e outros. No Jogos Abertos de 1968 ou 1969, implantei o “Batismo” nos calouros ( nadadores que iam aos Jogos pela primeira vez), hoje uma prática nada recomendável. E um dos nadadores que cortamos o cabelo era o José Finkel. Um garoto maravilhoso, do tipo que todo mundo quer ter como filho. Um ano depois recebemos a notícia que haviam identificado sua doença e, meses depois, ocorreu seu falecimento. O nome do troféu idealizado pelo sr. Berek realmente é uma pungente homenagem a um moço que precocemente nos deixou. Mas sua curta trajetória será sempre lembrada.

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  6. Paulo Zenobio Silva Miorim novembro 26, 2013 — 6:02 pm

    Existe algum site que mostre fotos da natação paranaense dos anos 1968 a 1972?

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