Medalha Olímpica Por Medida Provisória!

Um dos Livros do Professor Darcy Ribeiro chama-se “Aos Trancos e Barrancos. Como o Brasil Deu no que Deu.”  Apesar da profusão de escândalos de corrupção e das bobagens adminitrativas, o País vai indo. Penso naquela imagem do Brasil indo pelo ralo, mas que por ser muito grande, fica entalado, faz um esforço danado e desvencilha-se do buraco para ir seguindo o seu rumo. Planos mirabolantes já tentaram acabar com a inflação por decreto.  A Medida Provisória editada pelo Executivo quer criar medalhistas olímpicos pelo Diário Oficial.

O lado bom da Medida Provisória é que, enfim, o esporte olímpico vai ter que prestar contas ao povo brasileiro de como gerencia a vastidão de dinheiro público que recheia os seus cofres. Desde a edição da Lei Piva, o Comitê Olímpico Brasileiro (“COB”) tem reinado soberano, mamado nas tetas do governo e escudado-se na falaciosa interpretação da Constituição de que, por serem entidades desportivas de direito privado, podem dar de ombros no momento de explicar como tem manuseado esses recursos. Se a Medida Provisória virar lei e se esta for cumprida, o COB terá que explicar o porque de nossos sucessivos malogros olímpicos, apesar dos cofres cheios. O exemplo mais recente foi a desastrosa participação nacional nos Jogos Olímpicos da Juventude, em Singapura. E como o COB sabe que em seis anos não vai criar uma geração de medalhistas olímpicos, teve que engolir a seco essa imposição do governo. No domingo à noite houve uma tensa reunião na capital federal, de Nuzman com sua tropa de choque, Ary Graça, Coaracy Nunes e Roberto Gesta de Melo para esmiuçar o novo diploma legal. Ficaram apavorados, pois a festança pode estar no final. Terão que cumprir metas, previamente acordadas por escrito. Desta vez, não teve escapatória. Nuzman e sua turma tiveram que se curvar ao poder central. Tirando isso, a Medida Provisória não vai modificar em nada  a estrutura do esporte brasileiro. Apenas servirá para aumetar a distância que já há entre a elite e aquelesq ue não têm acesso ao esporte.

A Medida Provisória ignora o fato de que somente 12% das escolas públicas no Brasil tem algum tipo de praça esportiva. E que nas privadas esse número é de 52%, o que também é baixo. Se o governo quer realmente alterar as estruturas do esporte, terá que começar alterando esta triste realidade. Até 2.016, o Brasil certamente não formará medalhistas olímpícos. Nossas medalhas continuarão vindo de esportes que desde a década de sessenta sobem no pódium olímpico, muito mais pela tradição, pelo esforço individual de um grupo diminuto de abnegados, do que por fruto de uma política esportiva popular e de longo prazo. Para começar a surgir uma nação olímpica, estudos internacionais comprovam que são necessários, pelo menos, doze anos de investimentos. E, ainda assim, em Países que já possuem estrutura de base, coisa que o Brasil está longe de ter.

Ganharia muito mais o País se a Medida Provisória destinasse recursos para que os colégios públicos pudessem construir praças de esporte de alto nível. Se houvesse um artigo que desse à educação física a mesma importância que se dá a outras disciplinas, tais como português, matémática, história, ou geografia. A educação física é tratada como disciplina de segunda categoria.  Os professores de educação física da rede pública deveriam ter sido contemplados com aumentos salariais, para que pudessem realizar melhor seu trabalho. Hoje, esses professores ganham  muito pouco. Têm que ministrar várias aulas, em locais diferentes, pulando de um lugar para o outro durante o dia, para ganhar um mínimo para sua subsistência.  As aulas de educação física que o governo proporciona às crianças são um verdadeiro desistímulo à prática da ginástica.

A Medida Provisória tratou o Brasil como se não existisse miséria esportiva, como se não fossemos um País de sedentários pelo simples motivo de que o povo não tem acesso e nem meios de praticar esportes. O governo mostrou que não tem projeto social para o esporte. E que não digam que o projeto Segundo Tempo, eivado de denúncias de corrupção e desvio de dinheiro, é bom. Não é. É mal formulado, feito por gente aquinhoada do Ministério de Esporte que não entende nada do assunto. O Projeto Segundo Tempo não é projeto. É um escândalo.

A Medida provisória também não tratou do dinheio das estatais que vai diretamente para as Confederações (ex. Caixa Econômica Federal/Atletismo; Correios/Desportos Aquáticos; Infraero/Judô). Dinheiro de estatal também é dinheiro público. Deveria haver metas para isso também. Quem vai controlar isso?

A Medida Provisória deveria, também, ter regulado a questão dos mandatos dos presidentes de Federações, Confederações e do Comitê Olímpico Brasileiro, impedindo que haja reeleições indefinidas. Não adianta nada injetar mais dinheiro se quem vai continuar gerindo são exatamente as mesmas pessoas que, há anos, o vêm fazendo de maneira incompetente. Se hoje o esporte olímpico vai mal, se estamos aquém das nossas possibilidades, a culpa maior é dos gestores dos recursos. Como já escreveu José Cruz, dinheiro há. O que falta é gestão.

O Governo deveria ter preocupado-se em disseminar a cultura olímpica pelo País, incluindo como uma disciplina obrigatória na grade escolar a história do olimpismo.  Ora, se o País vai sediar Jogos Olímpicos, temos que criar na nossa juventude uma mentalidade olímpica. O povo tem o direito de saber sobre o que se trata aquele evento cuja conta cara é ele que está pagando. Olimpíada, para o desgosto da nossa catolagem, não é somente negócio. É cultura e educação.

A Medida Provisória deveria ter ido além e modificado a forma como o Comitê Olímpico Brasileiro distribui o dinheiro público entre as Confederações filiadas. Hoje os esportes que já são mais ricos ganham as fatias mais polpudas dos repasses da Lei Piva. Aquelas Confederações que o próprio COB chama de “nanicas” continuam por aí, com pires na mão, à míngua e dependendo dos humores e agrados do tutancamon olímpico. O que adianta a um esporte “pequeno”, que o COB apenas pague a um atleta uma passagem para disputar competições no exterior? Isso pode ajudar a uma pessoa específica. Mas não é política para definitivamente popularizar aquele esporte. As Confederações “menores” não precisam de esmolas. Precisam de apoio contundente, pois somente assim poderão crescer. E dinheiro o COB tem, mesmo considerando que mais da metade do que recebe do Estado é consumido com a sua própria parafernália interna, enquanto que deveriam ser repassados aos Atletas.

Até 2.016 não seremos uma potência olímpica. Este governo e todos que o antecederam nunca trataram o esporte com a seriedade que merece. Nunca pensaram que a qualidade virá quando houver quantidade. Potência olímpica somente seremos quando os governos conscientizarem-se de que a solução do esporte está na escola. Somente depois de muitos anos trabalhando na base, poderemos selecionar atletas olímpicos capazes de brigar por medalhas. E que , considerando a vastidão do território nacional, estes não sejam selcionados em apenas três, ou quatro Estados.

Como disse o Professor Darcy, o Brasil vai aos trancos e barrancos para ver no que dá. O País da imprevidência. E do descaso.

Categorias olimpismo

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