Sérgio Cabral, O Pai, O Tal.

Em resposta o papai Sérgio Cabral eu poderia escrever aquilo que, hoje, muita gente lhe atribui. “Um sambista aposentado que esqueceu o seu passado e que se acomodou como papai de político. E ainda pensa que é o tal.” O tal Cabral.

Mas eu me recuso a pensar assim. Já ví o papai Cabral ser severamente criticado, por passar a mão na cabeça do filho, quando este alia-se ao que há de pior na política nacional. Mas entendo perfeitamente a sua situação. Ser pai está acima da condição de cidadão brasileiro e, sobretudo, da capacidade de continuiar crítico das nossas mazelas sociais e esportivas, como sempre foi. Vai sempre lamber a cria. Isso, acho eu, vale para todos.

Nunca tinha ouvido falar do Cabral filho. Quando ouvi seu nome na política, dei-lhe um voto de confiança, justamente por causa do pai. Pensei que viesse por aí algo novo, para arejar a política nacional. Mas político, como regra geral, quer sobreviver em seus cargos e, se não fizer concessões aqui e acolá, acaba virando pó. Cabral filho vive de braços dados com Eduardo Paes, que ganhou notoriedade nacional ao esculhambar, veementemente, o Lula na CPI do Mensalão. Esculhambou tanto que virou candidato a governador. Perdeu e, hoje, após pedir desculpas à Dona Marisa, vive afagando o Lula na cadeira de alcaide. E antes de tudo isso, ele sentava no colo no César Maia para pedir conselhos. Dá para entender esse imbroglio ideológico? Eu não consigo. Mas os políticos, acho que sim. E, como pai de político, o Cabralzão também acaba conseguindo.

Tenho enorme simpatia pelo Cabral pai. Não acho que ele seja somente um sambista aposentado, que hoje vive como pai de governador e goza das benesses da vida fácil, passando finais de semana em Angra dos Reis. Ao contrário, acho que o Cabral pai não jogou sua biografia no lixo, de escritor, músico e de ativista contra a ditadura militar.

O Cabral pai tem que entender que eu não sou contra o Rio. Não torci pela derrota do Rio. Levar essa discussão para o campo do bairrismo é emburrecê-la. É coisa de gente que parece nunca ter postos os pés em outros lugares do mundo e cuja cultura não vai muito além do bairro em que vive e da praia que frequenta. Certamente, o Cabral pai não é assim.

Eu torci a favor do Brasil, porque acho, democraticamente, que o País tem outras prioridades sociais antes de despejar tanto dinheiro em um evento esportivo grandioso. O Rio — e somente o Rio, no Brasil — deveria receber os Jogos Olímpicos como um prêmio por seu trabalho de recuperação da Cidade. Como já escrevi na Folha de São Paulo, o Nuzman não é o Seu Creysson e nem as Olimpíadas irão resolver todos os problemas do Rio, que são gravíssimos. E como a turma que quer organizar isso é exatamente a mesma que fez aquela lambança com o dinheiro do Pan Americano, de legado zero, nada me leva a crer que, de uma hora para outra, eles ficaram compententes.

Cabral pai não pode, pelo seu passado, por exemplo, sair de braços dados com o nosso Cacique Olímpico e aplaudir cada palavra arrogante que ele desfilar contra os Jornalistas, enquanto sacode a cabeça e pisca freneticamente os olhos.

Cabral pai tem que entender que minha opinião é apenas diferente da dele. E que quando não desejei as Olimpíadas no Brasil, foi porque preferi ver todo esse dinheiro investido em saúde, educação, transporte público, moradia, alimentação popular, obras de infra estrutura, segurança pública, combate à criminalidade e por aí vai. Temos que ser grandes para sermos Olímpicos. E não Olímpicos para virarmos grandes.

Cabral pai,  para mim continua sendo o tal.

Categorias olimpismo

4 comentários em “Sérgio Cabral, O Pai, O Tal.

  1. Nilson Duarte Monteiro outubro 9, 2009 — 11:58 am

    Olá Alberto,

    Quer conhecer alguém, de-lhe poder.

    Infelizmente aqueles que tanto adimiramos em nossa juventude, estão nos decepcionando.

    Vou dar um depoimento que poucos sabem. Nos anos 70, mas precisamente em 1977, eu era militar da Aéronautica, na Base Aérea do Galeão, e lá tinha uma célula de combate aos “terroristas”. Pois bem, o meu comandante, Coronel Corrêia vulgo Chacrinha, era um combatente desses supostos terroristas. Um belo dia foi preso um suposto terrorista e levado para tortura e eu fui convocado para bater no cara. Eu com apenas 19 anos de idade me recusei a descer a borracha no cara, e o Coronel Corrêia me disse, “quer apanhar no lugar dele?”, não tive outra escolha, desci a borracha no sujeito. Quem está me lendo o que faria no meu lugar, um garoto soldado de apenas 19 anos sendo ameaçado por um Coronel?

    Depois desse epsódio decidi que daria baixa na primeira oportunidade. Mas, quis o destino que eu conhecesse o Capitão Sérgio Macaco do Parasar, que me incentivou a entrar para o corpo de paraquedista e resgate da Aéronautica. Resumindo, fiquei mais dois anos servindo, onde tive o prazer de conhecer o Marechal do Ar Eduardo Gomes.

    Estou contando isso para mostrar que minha admiração por aqueles que combatiam os desmandos dos militares, tais como, José Jenuíno, José Dirceu, Caetano, Gilberto Gil, Sérgio Cabral, a turma do Pasquim, Henfil, Betinho, Lula e por aí vai. Quando deram poder a alguns deles, mostraram o que realmente queriam ou eram, iguais aos que eles combatiam.

    Muito triste ver seus ídolos se transformarem por causa de 30 moedas.

    Curtir

  2. Nilson,

    Parabéns pela coragem do depoimento.

    Curtir

  3. O Cabral fez parte daquela patota do pasquim, comandada por Ziraldo, que destruiu a vida de Simonal. Literalmente. Se ele não teve participação ativa como o Ziraldo, ele se omitiu, o que dá no mesmo.
    Agora o canalha também experimenta a destruição do próprio filho, este por cometer crimes hediondos, e se refugia na desculpa de que não se lembra do criminoso.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close