A Mentalidade Esportiva Brasileira Ainda Vive Na Década De 40.

Tenho muita honra em dizer que meu avô, Major Sylvio de Magalhães Padilha, ainda Atleta Olímpico, convidado pelo então Governador do Estado Adhemar de Barros, criou e dirigiu o Departamento de Esportes e Educação Física do Estado de São Paulo, que virou o famoso D.E.F.E. e , depois, a Secretaria de Esportes. A regulamentação do esporte no Estado de São Paulo precedeu a da União Federal (quem quiser saber mais sobre isso visite www.sylviodemagalhaespadilha.com.br). Alguns anos depois, o ditador Getúlio Vargas resolveu criar as leis esportivas federais. Vivíamos a época do Estado Novo. Getúlio fez com o esporte aquilo que fez com os Sindicatos e com todas as instituições nacionais. Impos tudo, por decreto,  atrelado às mãos do Poder Central. Estabeleceu que cada Estado teria uma única Federação para cada esporte, que seria, obrigatoriamente, filiada à uma Confederação Brasileira. Essa estrutura era mais fácil de controlar. Na época, meu avô insurgiu-se contra o modelo ditatorial de Getúlio. Deu uma entrevista de página inteira a um jornal paulista. Por ser quem era, teve enorme repercussão. O ditador não gostou, é claro. E isso valeu a meu avô, militar de carreira, uma transferência forçada para Passo Fundo que, na ocasião, não tinha água quente e nem luz elétrica à noite, no quartel. Por isso meu avô deixou o exército e dedicou-se, exclusivamente, à sua outra profissão, Professor de Educação Física.

A grande novidade da lei Zico, redenominada como lei Pelé, foi a libertação dos esportes das amarras de uma única Federação. Qualquer uma das modalidades pode formar quantas ligas quiser e  não mais estar sob a égide de uma única Federação. Isso quer dizer que se determinados clubes não estão contentes com os rumos da sua Federação, a lei passou a permitir que eles se agrupem em ligas e promovam os seus próprios campeonatos. Ocorre que, ao menos para os esportes olímpicos, não se viu criação de ligas (a não ser a do basquete, que fracassou). Muitos Clubes continuam desgostosos com suas Federações e seguem dando murros em ponta de facas, porque não conseguem nenhuma mudança, nenhuma melhora. Ora, porque os clubes não abandonam as sua Federações e criam suas próprias ligas? Em primeiro lugar, porque paira sobre eles a ameaça de que, se fiserem isso, seus Atletas podem ficar fora de competições oficiais internacionais, na medida em que as Federações Internacionais e o Comitê Internacional Olímpico (“CIO”) não reconheceriam tais ligas. Em segundo lugar, porque a mentalidade dos dirigentes ainda reside nos decretos impostos pelo ditador Vargas.

Eu acho que, muitas vezes, em vez de perder tempo querendo mudar os rumos de uma Federação, melhor seria aos clubes abandoná-la e fazer suas próprias competições, criando suas próprias ligas. A ameaça de que tais Atletas não seriam convocados para seleções nacionais são puro blefe. Imaginem se o clube do Cesar Cielo abandonasse a Federação Aquática Paulista e, com outros cinco grandes outros clubes, formassem sua própria liga. Vocês acham que os resultados obtidos pelo Cielo o afastariam de campeonatos mundiais e Jogos Olímpicos? Duvido que alguém o teria coragem de deixá-lo de fora. O mesmo raciocínio vale para qualquer Atleta de qualquer esporte.

Nos Países mais desenvolvidos esportivamente, a Confederação serve apenas para cuidar das seleções nacionais. O dia a dia dos campeonatos fica sob a administração dos próprios clubes e das ligas por ele formadas. Não existe essa hierarquia impositiva de clube, Federação e Confederação. Mesmo no futebol acontece isso.

Acho que é hora de pensar em abandonar esse sistema falido de Federações estaduais para cada esporte, filiadas a uma Confederação nacional. A administração dos campeonatos estaduais e nacionais deveriam ficar sob a organização dos próprios clubes, formando as suas ligas. E às Confederações Nacionais caberia somente a obrigação de cuidar das seleções do País. E parar de ficar impondo regras iguais para Federações em Estados cujas realidades esportivas são diferentes. É necessário parar de raciocinar como o ditador Getúlio Vargas e arejar o pensamento do nosso esporte. Enquanto o mundo democrático e esportivamente avançado segue um caminho, o Brasil prefere manter um esquema autroritário, que possibilita benefícios. Vai na contra mão da história.

Categorias olimpismo

2 comentários em “A Mentalidade Esportiva Brasileira Ainda Vive Na Década De 40.

  1. Murray essa é uma questão complicada.
    Tal qual o esporte olímpico, o automobilismo também se ressente desse engessamento imposto pelo modelo de federações e confederação, é um gerenciamento antiquado que permite a formação de cartéis e monopólios, as famosas igrejinhas.
    Hoje a CBA tem enorme dificuldade em gerenciar o esporte porque a estrutura que se formou ao longo das décadas tornou muito difícil hoje um organizador ou clube independente realizar alguma prova fora da égide da Confederação, situação semelhante ao que acontece com os esportes olímpicos, e até mesmo o futebol.

    Para o bem do esporte essa mentalidade deveria ser abolida, mas isso mexeria com interesses de muita gente que não quer largar o osso e nada faz para melhorar a situação, e ainda por cima combatem veemente quem se opõem às idéias deles.

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  2. Arno Gilberto Hofmann janeiro 5, 2011 — 3:39 pm

    Faço parte do Sistema Desportivo Nacional ( Pesca e Desportos Subaquáticos) desde 1972. Já fui Presidente da Federação Sul Riograndense de Pesca e Desportos Subaquáticos por duas vezes. Outras oportunidades houveram ,com participação em âmbito Nacional, tanto como Dirigente como atleta. Concordo em gênero, número e grau com as colocações referidas. Defendo por muito tempo mencionado posicionamento por parte dos Clubes.

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