Um Esboço da Nossa Realidade Esportiva, por Plínio Lins.

março 1, 2012

Um esboço da nossa realidade esportiva

Por Plinio Lins

Outro dia comentei sobre a questão do esporte brasileiro depois da ida de Aldo Rebelo para o ministério. Foi sobre a confusão das ONGs. Prometi voltar ao assunto. Então vamos lá.
Os Jogos Pan-Americanos servem para mostrar, a cada quatro anos, como o Brasil está situado no esporte em relação aos outros 45 países das três Américas e do Caribe, nossos vizinhos do lado de cá do Atlântico.
Agora no Pan 2011, ficamos em terceiro lugar em medalhas de ouro. Só fomos superados pelos Estados Unidos e por… Cuba, novamente.
Conquistamos 48 ouros. Eles, 58.
E olhem que desde 1971 (há 40 anos), Cuba sempre esteve em segundo lugar no Pan, nunca caiu para terceiro. Somos, portanto, fregueses de caderninho deles.
Como é possível uma ilhota como Cuba superar o Brasil no esporte?
Somos a sétima economia do mundo. Nosso PIB é de 2,2 trilhões de dólares.
Cuba é apenas a 68ª economia, com PIB de 51 bilhões de dólares – isso é pouco mais da metade do PIB de Pernambuco. Nossa renda per capita é duas vezes e meia a deles.
O Brasil tem 192 milhões de habitantes; Cuba 11 milhões. Tem menos da metade da área do Piauí.
Sufocada há 50 anos pelo bloqueio comercial dos EUA, a ilha de Fidel praticamente só exporta rum e charutos. Vive do turismo, mesmo assim só nos anos em que algum furacão não devasta tudo.
Então, como eles podem, há tantos anos, ter mais atletas campeões do que nós?
Para começar, Cuba deve ser o país com maior concentração de professores de educação física no mundo. Eles até exportam técnicos.
Eles têm oito escolas de Educação Física de nível médio, uma faculdade de cultura física em cada província, um instituto de cultura física a nível nacional e uma Escola Internacional de Educação Física e Desportiva.
Se um cubano ou uma cubana tiver gosto e levar jeito para algum esporte, terá todo o apoio do estado para se desenvolver. Terá à disposição, de graça: 87 Academias Desportivas Estaduais, 17 Escolas de Iniciação Desportiva Escolar, 14 Escolas Superiores de Aperfeiçoamento Atlético e, no topo, três Centros de Alto Rendimento.
Não se consegue conquistar os ouros que Cuba conquista sem um povo saudável.
O cubano é um dos povos que menos adoecem no mundo. Recebe cuidados desde que nasce. Não tem esbanjamento na mesa, mas é bem alimentado. E quando alguém adoece, é assistido por uma medicina das mais avançadas do planeta, e de graça, acessível a todos.
Cuba tem um IDH bem superior ao do Brasil – são dados da ONU e do Banco Mundial, não é propaganda comunista.
O índice de alfabetização dos cubanos é de 99,98% – quer dizer, é preciso procurar muito para encontrar um analfabeto na ilha. Dá para apontar na rua: “O analfabeto da nossa cidade é aquele senhor ali”.
Eu nunca estive em Cuba, como certamente a quase totalidade dos que estão lendo isto aqui. Mas procuro me informar com fontes em que é possível confiar.
Agora, amigo, se a sua referência para se informar sobre Cuba (e outros assuntos) é a Globo, então esqueça.
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O que eu queria dizer é que o Brasil não precisa virar comunista para se tornar uma potência esportiva, ou pelo menos para deixar de ser freguês de Cuba.
Eles fazem muito com pouco dinheiro.
O capitalismo também produz campeões do esporte, sempre produziu.
Nós poderíamos fazer muito mais, apenas gastando direito o dinheiro que aqui existe.
Imagine quantas escolas de educação física poderiam ser mantidas, formando atletas e técnicos de ponta, somente com o dinheiro desperdiçado, por exemplo, em gastos sem serventia no Senado.
(Só um exemplo: um suplente de senador, que não recebeu um só voto e assume o mandato por um ou dois meses, garante para si próprio e seus dependentes, pelo resto da vida, um plano de saúde de primeira linha, dos mais caros. É vitalício. Pago pelo Senado. E o suplente nem precisa disso, porque geralmente é um sujeito rico que financiou a campanha do titular.)
Agora calcule todos os suplentes que já assumiram, acrescente outras mordomias sem sentido, junte mais a dinheirama que é jogada fora (ou melhor, dentro) pelo Poder Legislativo em geral, pelos tribunais superiores e inferiores, pelo Executivo e seus comissionados, pelos Tribunais de Contas e vá somando, começando de 1 bilhão por ano. Só aí teríamos quase uma Cuba inteira de atletas.
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Se querem um esboço da nossa realidade esportiva, só para comparação com Cuba, eu a tenho.
Quarta-feira da semana passada, dia 23, por volta do meio-dia. Na esquina da minha rua com a Av. Fernandes Lima, paro no sinal. Um grupo de garotas, de uns 15 ou 16 anos, aborda os carros. Uma delas me pede para baixar o vidro e explica o que estão fazendo ali.
São alunas do Cepa, atletas do time de handebol, estão uniformizadas. Pedem dinheiro para custear a viagem a outro estado porque querem participar de uma competição nacional.
É isso. Ao invés de treinar, elas têm de passar pelo acanhamento de pedir dinheiro a estranhos na rua, sob o sol do meio-dia e ainda se arriscando ao constrangimento de ouvir piadinhas ou coisa pior – tudo só para que possam competir representando seu Estado.
O ministro Aldo Rebelo, um alagoano preparado, honrado e bem-intencionado, gosta de esportes e sabe das necessidades do Brasil. Conhece Cuba de perto, andou pelo mundo inteiro. Pelo menos os bons exemplos para se inspirar ele sabe onde buscar.

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