A consagradora vitória do César Cielo mostra, mais uma vez, que o esporte brasileiro vive de heróis, de talentos naturais que são cuidadosamente lapidados e que, por esforço brutal, consegue chegar ao patamar mais alto do pódium. Será que se o gigante César Cielo tivesse nascido na França, ou nos EUA, o caminho dele para a glória teria sido menos difícil? Sim, acho que teria. Lá o Atleta de alto rendimento tem efetivo apoio dos órgãos dirigentes do desporto. O esporte brasileiro, a cada dia, dá demonstrações de que suas conquistas não são fruto de um trabalho planificado, de longo prazo, da famosa política esportiva. Cielo lutou muito para chegar aonde está. Um dos melhores depoimentos do programa Brasil Olímpico, da ESPN Brasil, foi dos pais do nadador brasileiro, que deixaram muito claro que se não fosse o sustento financeiro deles próprios, esse talento teria ficado pelo meio do caminho. Emocionante a declaração da mãe de Cesar Cielo, ao afirmar que as medalhas olímpicas eram dele e que vieram sem apoios oficiais. Melhor ainda foi quando a corajosa mãe intimou a cartolagem a nunca mais trancar o filho em uma sala e fazer sobre ele irresistível pressão para não falar a vedade, ou o que de fato sentia. Essas medalhas obtidas até agora em Roma, embora poucas em comparação com o potencial que o Brasil poderia desenvolver, são de enorme valia. E servem para comprovar que, cada vez mais, o Brasil precisa de mudanças na direção do esporte, de forma a arejar as arestas. Que não digam os dirigentes que a medalha de Cesar Cielo é produto de suas administrações competentes. Não é. Deixem o Cielo falar. Deixem os pais dele falarem novamente. Vale sempre questionar quanto dinheiro da Lei Piva foi investido na formação do Atleta, vis-a-vis a dinheirama que jorra pelos ralos da candidatura olímpica brasileira. Será que se o Comitê Olímpico Brasileiro parasse de jogar dinheiro em investimentos sem retorno e passasse a preocupar-se mais com a formação dos Atletas, não teríamos muito mais Cielos? Claro que sim. Será que não cabe ao clube formador receber parcela da Lei Piva? Sim, desde que a eles, também, sejam impostas regras rígidas de controle uma vez que estarão lidando com dinheiro do povo e estabeleçam quotas mínimas para Atletas militantes. O que não é mais possível é uma entidade, o Comitê Olímpico Brasileiro, receber milhões de Reais de dinheiro público e gastá-lo como bem entender. Inclusive com candidaturas olímpicas . Não vamos usar as medalhas de Roma para tapar o sol com a peneira e jogar a sujeira para baixo do tapete. Vamos aproveitar o momento para discutir, a fundo, os rumos do esporte brasileiro.
Orlando Silva, Carlos Nuzman, Marcus Villaça, por José Cruz.
Julho 30, 2009
O drible do ministro
A convite do ex-craque Raí, do São Paulo Futebol Clube, participei há poucos meses de uma reunião na capital paulista. Raí lidera o movimento Atletas pela Cidadania, de apoio às boas causas sociais, reunindo expoentes do esporte olímpico e paraolímpico: Magic Paula, Lars Grael, Gustavo Borges, Ana Moser, Joaquim Cruz, Fernando Meligeni, Rosane dos Santos, Gustavo Borges, Clodoaldo da Silva, Branca, Rogério Ceni e tantos outros.
Minha participação foi para apresentar algumas análises sobre o que temos e como são usados os recursos públicos para o esporte. Lá pelas tantas, entrou na pauta a questão do momento, os gastos do governo com a realização dos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro, em 2007. Era recente o primeiro relatório dos auditores do Tribunal de Contas da União (TCU), com indícios de irregularidades – superfaturamentos, principalmente.
Com base no que os auditores escreveram, manifestei aos atletas minha esperança de que teríamos um relatório final surpreendente e exemplar, assinado pelo então ministro do TCU, Marcos Vilaça, há pouco aposentado.
Até então apenas ouvindo, Cláudio Weber Abramo manifestou-se. Diretor da ONG Transparência Brasil, ele discordou de meu entusiasmo e sentenciou, para a decepção de todos:
“Não se iludam. Isso não dará em nada”, afirmou.
Voltei aos argumentos otimistas e lembrei de um rápido encontro que tive com Marcos Vilaça, em seu gabinete. Na ocasião, ele recebia a visita do ministro do Esporte, Orlando Silva. Mais três ou quatro funcionários do TCU – imagino que fossem os auditores que trabalhavam no processo do Pan – estavam numa ampla sala.
Antes da primeira pergunta e adiantando que não tinha muito tempo para atender repórter, Vilaça foi direto em sua mensagem. Em resumo, disse o seguinte:
“Estou explicando ao ministro Orlando que não é possível driblar a lei. Sei que estamos próximos da realização do Pan-americano e promover licitações agora pode provocar mais atrasos nas obras. Mas não tem desculpas, pois não podemos concordar com qualquer proposta em contrário”.
Ficou claro que Orlando Silva foi ao TCU pedir para “driblar a lei”, isto é, contratar obras e serviços sem licitação, uma afronta, uma agressão, uma fraude para quem conhece um mínimo sobre administração pública.
E insisti aos Atletas pela Cidadania que não deveríamos temer, pois o TCU seria, como é seu dever, rigorosíssimo, indiciando os fraudadores. Ricardo Vidal, que em Brasília dirige o Instituto Joaquim Cruz, estava nesse encontro de São Paulo e testemunhou a sentença de Cláudio Abramo:
“Não se iludam. Conheço essa gente. Essa manifestação do ministro foi uma encenação”.
Passa o tempo e sai, enfim, o terceiro relatório sobre os gastos nos Jogos Rio 2007. E o que se constatou? Que, lamentavelmente, Cláudio Abramo tinha razão.
É preciso dizer que os técnicos, os auditores do TCU foram rigorosos. O levantamento que fizeram não deixa dúvidas sobre os deslizes cometidos com o dinheiro público, no Pan. Mas o ministro, em ato decisivo que antecedeu sua aposentadoria, foi complacente, omisso e parceiro do ato ilegal e imoral.
Pior: consagrou que sua declaração à imprensa, naquela reunião com Orlando Silva foi, de fato, encenação. No melhor estilo do drible da vaca, Marcos Vinicius Vilaça encenou o jogo da mentira e driblou a lei, como foi lhe propor o senhor ministro do Esporte. Por tabela, colocou na cara do gol da salvação e da impunidade o presidente do Comitê Organizador dos Jogos Pan-americanos, Carlos Arthur Nuzman.
Profissionalmente, confesso, tomei o drible da ingenuidade. Acreditei na autoridade, competência e firmeza de uma autoridade do TCU, Marcos Vilaça. Não honrou esses princípios.
Vilaça, que chefiou a delegação da Seleção Brasileira num jogo contra a Argentina, é amigo íntimo de Ricardo Teixeira, o que dispensa comentários para traçar um perfil mais fiel sobre o ministro aposentado.
JUCA KFOURI
Deixem Jesus em paz
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Está ficando a cada dia mais insuportável o proselitismo religioso que invadiu o futebol brasileiro |
MEU PAI , na primeira vez em que me ouviu dizer que eu era ateu, me disse para mudar o discurso e dizer que eu era agnóstico: “Você não tem cultura para se dizer ateu”, sentenciou.
Confesso que fiquei meio sem entender. Até que, nem faz muito tempo, pude ler “Em que Creem os que Não Creem”, uma troca de cartas entre Umberto Eco e o cardeal Martini, de Milão, livro editado no Brasil pela editora Record.
De fato, o velho tinha razão, motivo pelo qual, ele mesmo, incomparavelmente mais culto, se dissesse agnóstico, embora fosse ateu.
Pois o embate entre Eco e Martini, principalmente pelos argumentos do brilhante cardeal milanês, não é coisa para qualquer um, tamanha a profundidade filosófica e teológica do religioso. Dele entendi, se tanto, uns 10%. E olhe lá.
Eco, não menos brilhante, é mais fácil de entender em seu ateísmo.
Até então, me bastava com o pensador marxista, também italiano, Antonio Gramsci, que evoluiu da clássica visão que tratava a religião como ópio do povo para vê-la inclusive com características revolucionárias, razão pela qual pregava a tolerância, a compreensão, principalmente com o catolicismo.
E negar o papel de resistência e de vanguarda de setores religiosos durante a ditadura brasileira equivaleria a um crime de falso testemunho, o que me levou, à época, a andar próximo da Igreja, sem deixar de fazer pequenas provocações, com todo respeito.
Respeito que preservo, apesar de, e com o perdão por tamanha digressão, me pareça pecado usar o nome em vão de quem nada tem a ver com futebol, coisa que, se bem me lembro de minhas aulas de catecismo, está no segundo mandamento das leis de Deus.
E como o santo nome anda sendo usado em vão por jogadores da seleção brasileira, de Kaká ao capitão Lúcio, passando por pretendentes a ela, como o goleiro Fábio, do Cruzeiro, e chegando aos apenas chatos, como Roberto Brum.
Ninguém, rigorosamente ninguém, mesmo que seja evangélico, protestante, católico, muçulmano, judeu, budista ou o que for, deveria fazer merchan religioso em jogos de futebol nem usar camisetas de propaganda demagógicas e até em inglês, além de repetir ameaças sobre o fogo eterno e baboseiras semelhantes, como as da enlouquecida pastora casada com Kaká, uma mocinha fanática, fundamentalista ou esperta demais para tentar nos convencer que foi Deus quem pôs dinheiro no Real Madrid para contratar seu jovem marido em plena crise mundial. Ora, há limites para tudo.
É um tal de jogador comemorar gol olhando e apontando para o céu como se tivesse alguém lá em cima responsável pela façanha, um despropósito, por exemplo, com os goleiros evangélicos, que deveriam olhar também para o alto e fazer um gesto obsceno a cada gol que levassem de seus irmãos…
Ora bolas!
Que cada um faça o que bem entender de suas crenças nos locais apropriados para tal, mas não queiram impingi-las nossas goelas abaixo, porque fazê-lo é uma invasão inadmissível e irritante.
Não mesmo é à toa que Deus prefere os ateus…