Os Jogos Panamericanos de 1.963, realizados em São Paulo, deram lucro. Isso mesmo, sobrou dinheiro. E foram considerados Jogos excelentes. Bem diferente da “caixa preta” financeira que se tornou o Rio 2.007. Presidiu a Comissão organizadora daqueles Jogos, em 1.963, o Major Sylvio de Magalhães Padilha. O Comitê Olímpico Brasileiro (“COB”), era presidido pelo Almirante Átila Ache. O presidente do COB José Ferreira dos Santos (também membro do Comitê Internacional Olímpico), morreu poucos meses antes da abertura dos Jogos Panamericanos, pelo que, durante a competição, a entidade foi presidente por Atila Ache.
Com o lucro dos Jogos Panamericanos de 1.963 em São Paulo, o COB comprou sua primeira sede própria, que ficava na Avenida Rio Branco, No. 156, 30º andar, na Cidade do Rio de Janeiro. Naquela época o esporte olímpico não tinha dinheiro para nada. Para levar-se uma delegação à competições esportivas internacionais, a coisa era feita no peito e na raça, com as pessoas físicas empenhando seus próprios bens para garantir empréstimos bancários.
No final de 1.963, Sylvio de Magalhães assume a presidência do COB, em substituição a Atila Ache. Remexendo meus arquivos, encontrei uma cópia da ata da primeira reunião havida na nova sede no COB, no final de 1.963, já sob a presidência de Sylvio de Magalhães Padilha, recem empossado. Nesta ata constam as instruções preparatórias destinadas às Confederações e questões de ordem burocrática interna da entidade. Entretanto, do mesmo documento constam as propostas para o desenvolvimento esportivo da nação, visando não os Jogos Olímpicos de 1.964, no ano seguinte, mas os de 1.968, que seriam realizados no México. Reproduzo, abaixo, os tópicos do que era a orientação do COB para o esporte nacional, há 46 anos atrás. Vejam a diferença de mentalidade.
“ VII – PLANO DE DESENVOLVIMENTO FÍSICO E ESPORTIVO DO PAÍS”
Em face do apelo já feito por este Comitê ao Exmo. Sr. Presidente da República ( Dr. João Goulart), bem como do relatório já enviado ao Ministériop da Educação, Presidente do Senado Federal, da Câmara dos Deputados e demais autoridades reiterar aquele pedido encarecendo providências às conclusões chegadas por este Comitê como única solução para a elevação do padrão físico e esportivo do país e que oferece a titulo de subsídio como se segue:
a) Educação física efetiva, como atividade curricular nos estabelecimentos de ensino primário e médio, sendo sua motivação feita através do esporte;
b) Já sendo a educação física reconhecidamente obrigatória pela lei de Diretrizes e Bases, recomendar a sua prática indispensável de três aulas semanais;
c) Que a educação física seja extensiva, obrigatoriamente, a todos os alunos, sem limite de idade equanto perdurar a sua ação educativa escolar;
d) Dar às Universidades locais adequados para a prática esportiva;
e) Aproveitamento pelo Estado e pelas instituições particulares, das áreas livres disponíveis nos estabelecimentos de ensino de todos os graus, com instalações esportivas, bem como não permitir novas construções escolares que não prevejam locais adequados à prática de educação física e dos esportes;
f) Dar competência aos órgãos técnicos especializados Federal e Estadual, para orientar, assistir e fiscalizar as atividades físicas de todas as instituições oficiais e particulares, em consonância com os Conselhos Estaduais de Educação;
g) Que o artigo 22 da lei nº 4.024 (Diretirzes e Bases) possa ser devidamente regulamentada pelo órgão técnico competente no Ministério de Educação e Cultura que é a Divisão de Educação Física do Ministério da Educação; e
h) que as Forças Armadas pelo meios que dispõem, façam o recutamento dos seus atletas dando assim às representações nacionais a sua imprescindível colaboração.”
Notem que se tratava de um projeto do esporte social, educativo, para todos, a longuíssimo prazo, desprovido de interesses comerciais e políticos, em que estariam trabalhando junto o COB, o Estado, Forças Armadas e os estabelecimentos de ensino, objetivando a massificação do esporte. Como decorrência disso, os bons resultados internacionais viriam naturalmente. A preocupação era fundamentalmente social, sem essas bobagens e megalomanias de Jogos Olímpicos no Brasil e de transformar o COB em um mero órgão organizador de eventos e distribuidor de camisas.
Se houver vontade política de todos os lados, ainda será possível colocar tudo isso em prática, ainda mais agora que o COB nada em dinheiro público decorrente da Lei Piva e dos demais repasses recebidos do Ministério do Esporte.