“Deus Está de Mau Humor”

Fevereiro 18, 2009

À partir do momento em que o Czar assumiu a presidência do COB, passou a ser habitual a recepcionista avisar aos funcionários que chegavam: “Hoje Deus está de mau humor”. O conselho era de que para não incomodar o patrão, não de deveria, rir, chorar, falar alto, recomendava-se andar devagar, tudo para Sua Majestade não se sentir desconfortável. O ambiente de trabalho no Comitê Olímpico Brasileiro (“COB”) passou ser horroroso. De fato, aqueles que vieram com ele da CBV, tratavam-nos com um Deus. Não por respeito. Mas por paúra. Algumas pessoas, jocosamente, diziam nos corredores que “o COB é a lijeira da CBV”. gente dispensada pela CBV, arruma seu empreguinho no COB.

O Czar começou a montar o seu cabide de empregos, alagar sobremaneira a folha de pagamentos e os gastos do Comitê que, é a mais pura verdade, a entidade vivia pendurada em bancos, pagando juros (na época ainda não havia a Lei Piva). O próprio Dr. Richer, vice-presidente, me falava isso.

As salas do COB na Rua da Assembléia são de propriedade do próprio órgão. Não se pagava aluguel. O COB vivia dignamente com as contas em dia, sem dinheiro jorrando dos cofres do governo.

Alguns projetos interessantes foram anunciados pelo Czar, com toda pompa e circunstância, como fazem esses políticos que querem aparecer e angariar votos de incautos. Lembro-me bem da festa (tudo é festa. O Esporte Olímpico brasileiro é uma festa, só que paga com dinheiro do povo) de lançamento do Museu Olímpico. Anunciaram na frente das televisões, dos jornais, das rádios (não havia ainda internet, embora o Czar nunca tenha levado muito a sério a mída eletrônica, de tal forma que já lhes negou, mais de uma vez, credenciais para competições olímpicas) a construção do Museo Olímpico, no Jardim de Alah, no Leblon, com direito a maquetes, fotografias e discursos. Isso faz mais ou menos uns oito anos e o assunto sumiu. Nunca mais se falou no assunto. O cargo atribuído à pessoa responsável pelo museu ficou e a remuneração continua até hoje sendo paga, com dinheiro público.

Hoje o COB tem uma folha de pagamento altíssima, desnecessária, com um batalhão de diretores, chefes de departamentos, funcionários, superintendentes, que poderiam,  muito bem, serem dispensados. Os gastos de manutenção com aquele prédio da Barra é astronômico. Tudo pago com dinheiro do povo.

Uma das primeira medidas que se deve tomar no COB, seja por moto próprio, ou por ações do TCU e do MP Federal, é auditar a necessidade dos gastos de manutenção da entidade, que chegam a R$ 23 milhões, conforme eles próprios escrevem e divulgam. Não há razão para que o COB tenha gastosde manutenção dessa monta.

Fará muito mais sentido e o COB estrá sendo muito mais útil à sociedade, se diminuir os seus gastos de manutenção e repassar mais dinheiro para ser investido efetivamente no esporte.

Quando eu escrevi o post “Se Eu Fosse Presidente do COB” (vide publicações atrás), esse foi um dos pontos que levantei,  como uma das propostas para tornar o Comitê um órgão útil e não uma entidade megalômana, que parece existir para ter um fim em si mesma.

Da Coluna do José Cruz.

Fevereiro 18, 2009

O choro e a fartura

   A choradeira é geral: falta dinheiro para o esporte. E os cartolas brigam, de olho no que cada um arrecada. A situação se agravou tanto que até criaram um tal de Confao: Conselho de Clubes Formadores de Atletas Olímpicos. Objetivo: entrar no rateio do dinheiro das loterias federais, que nos últimos sete anos já rendeu R$ 500 milhões ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB).

    Porém, dos quatro clubes sociais — os outros cinco são de futebol — que criaram o Confao, três já encheram os bolsos em outra fonte, na Lei de Incentivo Fiscal. E não é pouca coisa: Minas Tênis Clube (R$ 29 milhões), Esporte Clube Pinheiros, de São Paulo (R$ 11 milhões), e Sogipa, de Porto Alegre (R$ 800 mil).

    Do outro lado do muro das lamentações, o presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, alega que a verba das loterias (Lei Agnelo/Piva) cobre apenas um terço de suas necessidades. E, aproveitando a abundância dos recursos governamentais, conseguiu outros R$ 52 milhões, da Lei de Incentivo ao Esporte, para o financiamento de projetos de competidores olímpicos.

    Nessa fartura, o governo se torna provedor sem fim, mas não apresenta um só projeto de prioridades e metas para aplicar tanto dinheiro público. Os contratos são de mão única: só desembolso.

 

Correndo por fora

    Com tantas facilidades, uma outra instituição correu por fora com voracidade maior. Foi a Confederação Brasileira de Clubes, de São Paulo, cujo presidente, Arialdo Boscolo, trabalhou em silêncio e conseguiu uma espetacular brecha na Timemania. Está lá, no artigo segundo da lei que criou a loteria para acudir os clubes em dívida com o governo, que um terço do que for arrecadado da Timemania vai para “projetos aprovados pela Confederação Brasileira de Clubes”. E quantos projetos já foram aprovados? Não se sabe, pois o cartola não responde aos pedidos de entrevista. 

    Não satisfeita, a Confederação Brasileira de Clubes desenvolve parcerias com o Ministério do Esporte, de tal forma que nos últimos quatro anos foi beneficiada com R$ 1,8 milhão. Os dados, oficiais, são da ONG Contas abertas.

    No entanto, que atleta essa confederação formou? Que evento com atletas promoveu? Que delegação de competidores financiou para um campeonato no exterior? Qual é o clube a ela filiado que recebeu parte desses recursos? E por que Flamengo, Minas Tênis, Sogipa etc, que reclamam faltar dinheiro para formar atletas, não batem à porta dessa entidade?

 

Tudo em casa

    Em 2008, a ONG Bola pra frente, de Jaguariúna (SP), foi a terceira instituição privada sem fins lucrativos que mais recebeu recursos do Ministério do Esporte: espetaculares R$ 8,5 milhões. Tanto dinheiro até passaria despercebido, não fosse por um detalhe: a Bola pra frente é dirigida pela ex-jogadora de basquete Karina Valéria Rodrigues, vereadora de Jaguariúna pelo PCdoB, mesmo partido do ministro do Esporte, Orlando Silva.

    Ou seja, o ministro injetou recursos na ONG da candidata de seu partido, que conseguiu se eleger com apenas 642 votos, num eleitorado de 28 mil pessoas. Para confirmar a doação, em abril de 2008 o ministro Orlando Silva foi a Jaguariúna, onde fez uma festa com políticos da região e, claro, com a candidata Karina.

    Como se vê, há fartura de fontes — loterias federais, Bolsa Atleta, Lei de Incentivo ao Esporte, estatais (Banco do Brasil, Caixa, Correios, Petrobras, Infraero e Eletrobrás) — e de pedintes. Porque isso é o que são, pedintes, enquanto não tivermos definida uma política de esportes. Todos falam, reclamam e choram. No fim das contas, todos recebem, mas ninguém se entende, porque no meio da gritaria querem mais.

 

Exemplo oportuno

    Frequentemente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva descarta o terceiro mandato. “A renovação de dirigentes é saudável para a democracia, ensina, do alto de sua sabedoria política. Seria muito bom que os cartolas que se perpetuam no poder das confederações esportivas aprendessem essa didática lição, vinda de quem nem sequer teve escola superior.

    Para não ficar no esquecimento: em 2000, o presidente da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA), Coaracy Nunes, declarou que em pouco tempo passaria o seu cargo para o vitorioso nadador Gustavo Borges. “Ele (Gustavo) está preparado para ser presidente da confederação”, disse o dirigente.

    Lá se vão nove anos daquela declaração, e Coaracy se mantém no cargo. E, depois de 20 anos no poder, já anuncia que concorrerá a mais um mandato na CBDA. A democracia do esporte não é a mesma defendida por Lula.

E outro para as Rainhas Paula, Ana Moser, Patrícia Medrado, com um grande abraço ao Raí e ao Lars. Gente do bem do esporte. Obrigado pela audiência ao Blog. Gente assim pode mudar o País, para muito melhor.